10-1 num Mundial é muita fruta (para quem marca e para quem sofre). Mas foi o que aconteceu em 1982. E entra diretamente para a rubrica O pior jogo das nossas vidas.

É ainda hoje a maior goleada num Campeonato do Mundo. OK que era El Salvador e era apenas a segunda participação daquele país numa fase final (1970 tinha sido a primeira). Mas não era preciso tanto – ou não era preciso tão pouco.

Sim, em 1970 a coisa também não tinha sido muito auspiciosa: 3 jogos-3 derrotas, zero golos marcados e 9 sofridos.

vs Bélgica 3-0
vs México 4-0
vs URSS 2-0

Em 1982, no Mundial de Espanha, não foi melhor. Foi até pior:

vs Hungria 10-1
vs Bélgica 1-0
vs Argentina 2-0

Mas o que é que pode explicar isto?

Na fase de qualificação El Salvador deixou de fora o México, Canadá, Cuba e Haiti. Além disso, os salvadorenhos tinham na altura um dos melhores jogadores do mundo (sim, leram bem).

Estamos a falar do Mágico González.

 

E se um dos melhores futebolistas de sempre for salvadorenho?

 

 

Anatomia de uma goleada

Há várias explicações para esta derrota.

A guerra civil que assolava o país, a corrupção, a desorganização e uma defesa que parecia dos juvenis.

A guerra impossibilitou inclusive a ida de alguns dos melhores jogadores.

«Se alguns de nós chegava tarde aos treinos era porque tinha ficado a ajudar pessoas feridas abandonadas na estrada» Francisco Jovel, antigo defesa, à FourFourTwo.

Esse 15 de junho de 1982 ficaria definitivamente para a história. As 23 mil pessoas que pagaram 800 pesetas (à volta de 30 euros nos dias de hoje) para entrar no Estadio de Nuevo Elche mal sabiam ao que iam…

A qualificação para o Mundial já tinha sido um milagre.

«Tudo o que sabemos é que quando jogámos o apuramento conseguimos que as mortes de ambas as fações parassem. As pessoas uniam-se pelo menos nesses dias de jogo. Esse foi o nosso maior presente, o país estava em profundo sofrimento e tínhamos a pressão de tentar reduzi-lo» Mauricio Alfaro, ex-jogador

 

O Kiss da morte

Se a fase de qualificação tinha sido dura, o que dizer do grupo que calhou a El Salvador, com o campeão mundial de 1978, o finalista do Euro 1980 e uma seleção europeia com faro para o golo?

  • a Argentina era a campeã em título, tinha acabado de conquistar o primeiro Mundial da sua história (em casa em 1978)
  • a Bélgica tinha sido recentemente finalista europeia, eliminando a Itália, a Espanha e a Inglaterra, perdendo a final do Euro 1980 para a Alemanha (2-1)
  • e a Hungria chegou passou como primeira do seu grupo à frente da Inglaterra, Roménia, Suíça e Noruega

«Não poderíamos ter tido pior sorte» diz o antigo defesa Carlos Recinos

E a coisa começou a dar para o torto bem cedo. No primeiro jogo e logo aos 3 minutos. Tibor Nyilasi era o capitão da Hungria e marcou o primeiro e o décimo golos. “Foi inesquecível”.

«Esse jogo é impossível de repetir. Se tivéssemos jogado 100 vezes nunca marcaríamos 10. Eles não eram assim tão maus como o resultado sugere. O problema é que tentavam atacar de forma ingénua«

Mesmo assim o 3-0 ao intervalo não fazia antever o que aí vinha.

O quarto golo desmoronou os salvadorenhos. Em pânico, o selecionador Mauricio Rodríguez mandou o guar6da-redes suplente aquecer para entrar, mas Eduardo Hernández recusou-se a entrar naquelas condições.

Nem tudo foi mau.

O golo de Luis Ramírez Zapata fica até hoje como o único de El Salvador em fases finais. E ele celebrou-o na altura como se o soubesse: era o 5-1 mas Zapata festejou-o à grande.

Na baliza estava Ferenc Mészáros, na altura guarda-redes do Sporting.

Os companheiros tentaram acalmar Zapata para não enfurecer os húngaros. “Mas eu estava demasiado eufórico”. A Hungria marcou mais cinco em menos de meia hora.

A equipa de El Salvador ficou desequilibrada com quatro avançados em campo e uma defesa praticamente inexistente. E eis que se dá a entrada de László Kiss.

Kiss estava imparável e alcançou dois recordes: o único suplente a marcar um hat-trick e o hat-trick mais rápido num Mundial – e um dos oito hat-tricks marcados numa fase final

“Foi um acidente terrível para eles, mas um acidente que permanecerá para sempre”, conta o antigo jogador do Vasas que marcou aos 69, 72 e 76.

O problema foi o placard quando o resultado chegou aos dois dígitos e o encarregado teve de arranjar maneira de acrescentar mais um número. Mas tudo era possível naquele dia.