O estádio olímpico de Berlim estava cheio com mais de 100 mil pessoas – e a tribuna de honra tinha Hitler para testemunhar a superioridade ariana. Mas Jesse Owens virou tudo ao contrário nesses Jogos Olímpicos de 1936.

Um negro, filho de um agricultor pobre, um dos mais novos de dez irmãos e neto de escravos conquistava nas pistas berlinenses quatro medalhas de ouro, todas com recordes mundiais, nos 100 metros (com 10,3s), nos 200 metros (com 20,7s), no salto em comprimento (com 8,06 metros) e na estafeta 4×100 metros (com 39,8).

Saiu da Alemanha como a grande figura dos Jogos mas nem assim foi melhor recebido em casa, nos EUA, cujo governo não quis reconhecer o mérito do atleta.

Sob os efeitos ainda de uma América profundamente racista, o presidente Franklin Delano Roosevelt recusou-se a dar os parabéns a Owens nem a reconhecer publicamente o seu feito.

Owens foi o primeiro atleta a ganhar quatro ouros nuns Jogos Olímpicos e as suas marcas foram tão impressionantes que o último dos seus recordes só foi batido em 1975.

O americano do Alabama, nascido a 12 de setembro de 1913, viria ainda a mostrar o seu grande desportivismo quando aplaudiu o feito de Mark Spitz nos Jogos de 1972, em Munique, quando o nadador arrecadou 7 medalhas de ouro.

«Estou orgulhoso de ter participado no processo histórico, mas só posso expressar a minha admiração pelos atletas que surgem atualmente», disse owens sobre spitz

Sem contratos publicitários ou dinheiro que fizesse jus à sua dimensão de atleta, Owens viu-se a participar em corridas-espéctaculo para sobreviver. Além das corridas normais com outros atletas, a antiga glória correu contra comboios, motas e até animais (cavalos, na maioria das vezes).

Evitou sempre até morrer, há 40 anos, com 66 anos, criticar a Alemanha. Foi ali que James Cleveland Owens pôde pela primeira vez na carreira dividir quartos com atletas brancos e viu um estádio com maioria branca a aplaudi-lo.