No dia 16 de outubro, durante a cerimónia de entrega das medalhas, dois atletas descalçaram-se e levaram os ténis nas mãos até ao pódio.

Tommie Smith (com recorde mundial 19.83 segundos) e John Carlos venceram a medalha de ouro e bronze respetivamente nos 200 metros nos Jogos de 1968, no México.

Apresentaram-se com os pés com as meias à vista – um gesto simbólico de protesto contra a pobreza nos EUA.

O cachecol ao pescoço para lembrar as pessoas que ao longo dos anos sofreram como eles com a segregação e o racismo – a luva preta nos punhos erguidos quando o hino americano entoou representava, naquele que será o gesto mais famoso nuns Jogos Olímpicos, a força dessa luta solidária com o movimento dos direitos civis.

 

 

Mão fechada e cabeça tombada.

Carlos foi ainda mais longe contra o procolo olímpico e desabotoou o casaco – disse-o mais tarde que foi em representação dos seus companheiros negros e brancos americanos, de Nova Iorque.

50 anos depois aquele gesto fugaz ainda perdura. E a luta continua, mais recentemente pelo joelho de Colin Kaepernick.

“Os punhos erguidos e as revoltas dos atletas negros assustaram muito o mundo do desporto”, disse à AFP Dave Zirin, editor de desporto da revista The Nation e autor do livro “The John Carlos Story: The Sports Moment that Changed the World”.

“Tudo o que se vê na década de 1970, com jogadores livres e salários mais altos, é uma consequência daquele momento em 1968. Isso levou várias gerações de atletas negros a conseguirem grandes fortunas.”

No ano em que Martin Luther King e Robert F. Kennedy foram assassinados este foi um gesto de coragem.

Coragem também do australiano Peter Norman, o velocista branco que ficou em segundo lugar e apoiou a manifestação de Smith e Carlos ao usar um adesivo do “Olympic Project for Human Rights” (OPHR).

Os três sofreriam represálias depois daquele pódio. Os americanos foram suspensos da delegação americana e banidos por toda a vida dos Jogos Olímpicos. Norman (1942-2006), que nunca lamentou o seu gesto, tornou-se um pária na Austrália.

Em dois dias, o Comité Olímpico dos EUA aceitou o pedido do COI e mandou Carlos e Smith para casa. Os dois foram recebidos como traidores e receberam ameaças de morte. Carlos atribuiu o suicídio da sua esposa Kim, em 1977, às turbulentas consequências da controvérsia.

Foi preciso esperar até 2012, seis anos após a morte de Norman, para que o Parlamento australiano apresentasse um texto pedindo desculpas a Norman pela maneira como foi tratado.