Lutz Eigendorf decidiu apanhar um táxi e assumir-se como desertor da República Democrática Alemã (RDA) naquela noite de 20 de março de 1979. Com isso desencadeou a ira de Erich Mielke, o chefe da polícia secreta Stasi e fanático adepto do Dínamo de Berlim, que via no jogador umas das grandes esperanças da sua equipa.

Desde esse dia, Mielke nunca mais descansou até se vingar da traição. Destacou 50 espiões para seguir o jogador na República Federal Alemã (RFA), incumbiu um agente para seduzir a mulher de Eigendorf e outro para se tornar o seu melhor amigo.

Quatro anos depois, a 7 de março de 1983, Eigendorf morria, sucumbindo aos ferimentos resultantes de um estranho embate dois dias antes com o seu Alfa Romeo numa árvore.

“Não se esqueçam de Eigendorf”. Uma frase que ficou famosa entre os agentes e comandos da Stasi. Uma ladaínha que o número 1 usava frequentemente nos corredores e durante as reuniões realizadas na sede, no número 103 da Ruschestrasse, em Berlim.

 

Dínamo campeão… dez vezes consecutivas

Mielke ajudou a refundar o Dínamo em 1966 e os melhores jogadores daquele lado do Muro acabavam nas suas fileiras. Os resultados eram manipulados e não era surpresa o domínio da equipa que contava com o apoio da Stasi – entre 1979 e 1988 venceu o campeonato dez vezes seguidas.

Naquela noite em 1979, o Dínamo regressava de um encontro particular na RFA com o Kaiserlautern e o controlo sobre a estrela da equipa (Eigendorf, com 22 anos, já era internacional pela RDA) afrouxara.

Só viajavam os futebolistas que não constituíssem risco de fuga acrescido e o médio cumpria os requisitos: tinha família em Brandemburgo, uma mulher e uma filha esperavam-no em Berlim, e não tinha nenhum contacto ou familiar na RFA.

Mas Eigendorf fintou os vigilantes da Stasi (e os companheiros de equipa, alguns espiões infiltrados) e conseguiu fugir. Regressou a Kaiserlautern e pediu asilo. A afronta estava feita.

A Stasi respondeu da forma mais cruel. Apertou a vigilância à família que tinha ficado para trás, não só à mulher e filha mas também aos pais do jogador.

A vida na RFA também não foi o que esperava. A UEFA suspendeu-o por um ano por causa da fuga e Eigendorf viu-se a treinar uma equipa de formação do Kaiserlautern.

Quando voltou a jogar, o cenário não melhorou. A aventura no Kaiserslautern foi curta e acabou transferido para o Eintracht Braunschweig em 1982.

Três anos depois da deserção, tudo era diferente: a mulher Gabriele apaixonara-se por um agente da Stasi com o nome de código “Lothario”, que tinha a missão de a seduzir. Casaram-se e ele adoptou a sua filha Sandy depois de conseguir que Gabriele obtivesse o divórcio.

Karl-Heinz Felgner era outro espião da Stasi destacado para a missão-Eigendorf, com o objectivo de se aproximar do jogador apresentando-se também como desertor. Seria este nome a aparecer como um dos envolvidos no misterioso despiste de automóvel do futebolista quando os arquivos da polícia secreta de Berlim Leste foram abertos com a queda do Muro em 1989.