Peter Shilton foi alvo da maior desfaçatez que pode acontecer a um guarda-redes num jogo de futebol: sofrer um golo com a mão (e o árbitro validar).

Estamos a falar do golo com a mão de Maradona à Inglaterra no Mundial de 1986.

Quatro anos depois dessa mão de Maradona a Shilton, Jean Castaneda do Marselha sofreria a mesma desfaçatez, agora de Vata naquela meia final da Taça dos Campeões no estádio da Luz em 1990 – e com esse golo seria o Benfica a passar à final.

Mais recentemente, em 2010, Shay Given veria Henry fazer-lhe o mesmo no playoff de acesso ao Mundial de 2010 – e ver a mão de Henry arrumar as esperanças da República da Irlanda e ver a França seguir em frente.

Voltemos a Shilton. E a Maradona.

Estamos nos quartos de final do Mundial do México 86 e está 0-0. O que se seguiu entrou para a história do futebol: o segundo golo de Maradona nesse jogo foi um prodígio de técnica (que o digam os jogadores ingleses), mas o primeiro do argentino foi um prodígio de maldade.

«Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios» disse maradona no final do jogo

O árbitro tunisino Ali Bin Nasser validou o golo e ficou quase tão famoso quanto o próprio golo. O mesmo aconteceu com o árbitro belga Marcel Van Langenhove e a mão de Vata; e o juiz alemão Felix Brych com a mão de Henry.

 

 

Só que ao contrário de Vata e Henry, Maradona não só assumiu a mão como lhe deu um desígnio celestial. E voltaria a repetir o feito – passados quatro anos e de novo num Campeonato do Mundo.

Ele faz coisas…

 

URSS 90

Maradona saiu do México com o caneco na mão e uma mão-cheia de histórias para contar às gerações seguintes. Não contente com isso, levou a Argentina a nova final no Mundial de 1990, em Itália – os argentinos perderiam o jogo decisivo para a Alemanha, mas as (muitas) histórias ficaram.

Uma delas foi a outra mão de Deus.

No jogo da fase de grupos frente à URSS, e com o jogo empatado 0-0, Maradona defendeu com a mão (desta vez a direita) um remate de cabeça de Oleh Kuznetsov que ia em direção à baliza (com Pumpido batido).

O árbitro sueco Erik Fredriksson, à semelhança do tunisino Ali Bin Nasser, nada viu e mandou seguir perante a ira dos soviéticos.

A Argentina ganharia o jogo 2-0 (com golos de Troglio e Burruchaga). Seria a única vitória dos argentinos no grupo com os Camarões (derrota 1-0) e Roménia (1-1).

Essa mão direita em 1990, tal como a mão esquerda em 1986, foi fundamental para a Argentina seguir em frente.

Em Itália, a Argentina passou em 3º e eliminou a URSS – como pior classificada do Grupo B, a seleção argentina enfrentou a melhor do Grupo C, o Brasil.

 

 

O resto já sabemos. Os argentinos eliminaram os brasileiros com mais uma jogada genial de Maradona antes de endossar a bola para Caniggia.