Andrés Escobar marcou um autogolo no Mundial de 1994 e 10 dias depois estava morto.

Há alguma ligação entre os dois factos ocorridos? Sim e não.

Os irmãos Jeff e Michael Zimbalist contam-nos a história desse fatídico corte para a própria baliza até à sua morte no documentário “Os dois Escobar”, produzido pela ESPN em 2010.

Os Zimbalist traçam os caminhos paralelos (e cruzados) de Andrés e Pablo. O primeiro era um símbolo do futebol colombiano: humilde, elegante, silencioso, talentoso. O segundo era uma besta do terror, com sede de protagonismo, ganância, poder.

Pablo foi morto pelo exército colombiano em 1993; Andrés foi assassinado assim que voltou à Colômbia depois do Camponato do Mundo dos EUA em 1994.

Os seis tiros com que foi baleado à saída de uma discoteca tornaram o defesa colombiano um mártir num país à beira do abismo por causa do narcotráfico. Andrés era conhecido como “cavalheiro do futebol”, chegou a ser capitão da seleção e campeão da Copa Libertadores da América pelo Atlético Nacional (em 1989).

As teorias sobre a morte do futebolista cresceram: foi o cartel de Medellín de Pablo Escobar que o mandou matar? Foi uma aposta, tramada pelo golo na baliza errada, que provocou a ira de um apostador? Terá sido a guerra perpetrada pelo cartel de Cali, inimigo do cartel de Medellín?

 

22 de junho, 20h05

Era o segundo jogo da Colômbia no Mundial dos EUA. Esse final de tarde de 22 de junho no Rose Bowl em Pasadena (Califórnia) iria marcar o futebol colombiano para sempre.

Traficantes que perderam dinheiro a apostar na seleção ameaçaram sequestrar os familiares dos jogadores. Frente aos EUA e a precisar de vencer depois da derrota no primeiro jogo frente à Roménia, os jogadores entraram tensos no jogo. A pressão era gigante – de outra forma teriam facilmente derrotado os americanos.

«El único miedo que sentí en la cancha fue cuando nos amenazaron en el Mundial del 94, tras perder el primer partido con Rumania»

«Llegamos a la charla técnica antes del partido con Estados Unidos y vi a Maturana llorando, que teníamos que ir a hablar con nuestras familias porque si no ganábamos nos mataban. Eso sí es sentir miedo…» Asprilla

Aos 35 minutos, o corte infeliz do camisola 2 da Colômbia enganou Óscar Córdoba e abriu o marcador a favor da seleção da casa, os EUA – os americanos acabariam por vencer o jogo 2-1 e deixar os colombianos numa situação difícil no grupo, à beira da eliminação.

 

 

Com essa derrota, depois do desaire na estreia com a Roménia 3-1, a Colômbia estava praticamente acabada. Seria preciso um milagre – e este não aconteceu.

A Suíça bateu a Roménia 4-1 e deixou as contas do grupo fechadas a favor dos romenos, suíços e americanos: passaram os 3 e a Colômbia foi eliminada, apesar da vitória na última jornada frente à já apurada Suíça 2-0.

  1. Roménia 6
  2. Suíça 4
  3. EUA 4
  4. Colômbia 3

A Colômbia chegara ao Mundial como uma das favoritas à vitória final (predição de Pelé), principalmente depois de ter goleado a Argentina em Buenos Aires por 0-5 na fase de qualificação, apurando-se directamente (passando o grupo sem derrotas).

Foi um dos piores jogos da história da Argentina e o mais feliz da Colômbia.

 

 

«Pelo que mostrou, a Colômbia é uma das favoritas ao título» Pelé

A eliminação era um fardo demasiado grande para uma seleção de luxo que continha nomes como Freddy Rincón, Valderrama, Valencia ou Asprilla.

Um país com uma identidade nacional tão integralmente ligada ao sucesso da sua seleção de futebol que um erro em campo fez corroer o orgulho de uma nação inteira e custou a vida de um homem.

É assim que nos explicam os realizadores Zimbalist no canal ESPN.

“A dramática ascensão e queda do futebol colombiano estiveram sempre inextricavelmente ligados à ascensão e queda do Cartel de Medellín, de Pablo Escobar, considerado por muitos o “partido governante” da Colômbia naquela época.

«For Colombians in the early 1990’s, soccer was a temporary escape from poverty and violence. There was a lot of weight on the shoulders of Andrés Escobar and the Colombian national team»

O desporto na Colômbia não estava apenas a espelhar a personalidade e a política da sociedade, mas também uma parte inseparável dessa sociedade – o campo de jogo era uma extensão das ruas e escritórios onde decisões influentes são tomadas.

Esta foi a história de sonhos e paixões de um povo intrinsecamente ligado à ascensão e queda de uma equipa. Histórias como estas fazem reviver o nosso fascínio infantil pelo desporto e confirmam o papel fundamental que desempenham na formação do nosso mundo”.

Segundo os entrevistados no documentário, Andrés foi morto por tentar defender o seu erro a um grupo de criminosos que o insultaram dentro da discoteca. Cá fora atiraram a matar.

 

Ver onde? Amazon Prime, Apple TV+, CBS All Access, Disney+, ESPN, Facebook Watch.