«I honestly don’t know what makes me exceptional. I’m a very, very simple person. I was raised that way»

Em Sadio Mané: Made in Senegal, documentário estreado no início deste mês (pode ser visto na Rakuten TV), o jogador do Liverpool assume a pele do narrador e transporta-nos para onde tudo começou: nas ruas de Bambali, uma das vilas mais remotas do Senegal situada a 15km da cidade de Sédhiou.

Entre usar pedras e frutas para dar toques como se fossem uma bola e as escapadelas para fora da sua aldeia para a todo o custo conseguir mostrar o seu talento ao mundo, Mané não teve outro remédio do que se não sonhar e lutar contra todas as expectativas, inclusive da sua família, para ir atrás do sonho.

Mais do que um dos melhores jogadores da actualidade, é hoje um pilar na sua comunidade e promete continuar a missão de carregar Bambali e o Senegal às costas der por onde der.

 

 

«From an early age, football was all I knew and all I wanted was to become a footballer. I don’t regret my sacrifices. Where I was born, becoming a footballer means you have to sacrifice everything» Sadio Mané

Sadio Mané é o protótipo de tudo o que actualmente um jogador de futebol não é. Humilde, não ligado a luxos e com o pensamento sempre na sua comunidade natal onde continua a deixar obra para as futuras gerações.

No documentário com pouco mais de uma hora de duração podemos ver o próprio Mané numa retrospectiva do que foi a sua vida e o seu início de carreira até chegar aos relvados de Anfield e àquela final da Champions.

Nascido na vila de Bambali, desde cedo o futebol começou a entrar na sua vida. Jogava descalço nas ruas e por vezes à falta de uma bola, jogava com pedras e fruta.

Aquilo que a família ambicionava para Mané era uma boa educação e que pudesse ajudar no trabalho de campo. O Banco Mundial estima que 70% das famílias daquela região vivem na pobreza. Não havia espaço para grandes ambições.

 

https://twitter.com/BBCAfrica/status/1134924207039688705

 

A persistência sempre esteve lá. Com o passar dos anos a fome de bola aumentou e chegou até a fugir de casa com o melhor amigo, Luc Djiboune, numa viagem de duas semanas ao Dakar para tentar a sua sorte. A viagem durou pouco e rapidamente a família foi ao seu encontro e devolveu-o a casa.

«It was the worst time when I returned to the village (…) I had a lot of hate. I said I’m here under one condition that I have just one more year of school and then it’s football. They respected my decision»

Prometeu estudar mais um ano e depois lutar pelo sonho do futebol. E foi o que aconteceu.

Aos 15 anos largou tudo e percorreu cerca de 800km até à capital do Senengal, Dakar, para fazer testes na academia de futebol Génération Foot. Chegou com umas sapatilhas velhas e rasgadas e nem sequer uns calções de futebol tinha.

Nos treinos de captação impressionou a equipa de recrutamento com a sua técnica, velocidade e a veia goleadora. Só nesse jogo marcou 4 golos. Mady Touré, responsável pela academia e hoje figura paternal de Mané, sabia que estava perante um talento fora do natural que não podia deixar fugir.

 

 

Foi nessa altura que trocou a vila rural para ser acolhido por uma família no Dakar, tudo para cumprir o seu sonho. Os olheiros do Metz rapidamente ficaram de olho em Mané e face ao acordo entre o clube francês e a Génération Foot, que todos os anos permitia que um jogador pudesse partir à experiência para França, aos 19 anos o jovem ambicioso iniciava o sonho europeu.

A partir daqui a história já é mais ou menos conhecida. O passo mais difícil era o de chegar à Europa e esse estava cumprido. Agora restava só mostrar o talento que nitidamente transbordava. Não sem alguns contratempos, nada que não estivesse habituado.

Começou a época no Metz com uma lesão grave que o deixou parado 8 meses. Logo que recuperado, deu nas vistas o suficiente para ser chamado para os Jogos Olímpicos de 2012 onde foi figura importante no caminho do Senegal até aos quartos de final. Pouco tempo depois largou França pela Aústria por 4 milhões e partiu para Salzburgo, terra do clube da Redbull e dali o destino foi Inglaterra para jogar no Southampton.

 

 

Sadio Mané: Made in Senegal conta ainda com testemunhos de Jürgen Klopp, Mohamed Salah e Virgil van Dijk.

Uma das histórias surpreendentes é contada pelo treinador alemão na altura em que se cruza pela primeira vez com Mané, quando ainda estava no Dortmund, em 2014.

«There was a really young guy sitting there. His baseball cap was askew, the blond streak he still has today… he looked like a rapper just starting out. I thought: ‘I don’t have time for this» Jurgen Klopp

Em 2016, Klopp emendou o erro de julgamento e Mané juntou-se a uma das equipas mais dominadoras do futebol nos últimos anos.

Com o Liverpool, Mané conquistou uma Liga dos Campeões (2018-19), uma Supertaça Europeia (2019), um Mundial de Clubes (2019), a Bota de Ouro da Premier League (2018-19), uma presença na Equipa do Ano da Liga dos Campeões (2018-19), foi 4º na lista da Ballon d’Or (2019) e o Melhor Jogador Africano do Ano (2019).

Todos os passos dados na carreira são contados no documentário, porém os que revelam a natureza humana de Mané são os mais cativantes.

 

 

Com objetivos de ser o melhor no futebol e principalmente um ídolo para a sua vila, Mané está neste momento em mãos com a construção de um hospital para dar aos habitantes de Bambali aquilo que o pai e a sua irmã não tiveram.

A ideia da construção de um hospital surge de um momento marcante na vida de Mané, quando perdeu o pai aos 7 anos. A vila não tinha um hospital que pudesse dar assistência ao seu pai que se encontrava doente e também a sua irmã teve que nascer em casa dada a inexistência de uma unidade que a pudesse acolher.

Hoje pretende dar essa oportunidade aos habitantes da sua vila que graças a ele já têm também uma escola com que se orgulhar, na qual investiu 270 mil euros do seu bolso.

 

rakuten tv

 

Nas imagens passadas no documentário, vêm-se crianças a jogar à bola na rua com equipamentos do Liverpool doados pelo próprio, todas munidas do sonho de um dia poderem ser como ele. Sadio Mané é agora um ídolo para a sua comunidade e especialmente para aquelas crianças. É a prova de que é possível.

O documentário está disponível gratuitamente na Europa através da Rakuten TV e na África francófona através do Canal+. Poderá ser também visto através do regime de pay-per-view rakuten tvnas áreas onde o streaming não está disponível e todo o dinheiro angariado será doado à caridade.

O melhor é mesmo ver.

«I honestly don’t know what makes me exceptional. I’m a very, very simple person. I was raised that way» Mané