Porquê rei?

Porque ser rei é fazer 80 anos e passar 60 a ouvir que Di Stéfano, Maradona, Cruyff, Cristiano Ronaldo ou Messi podem ter sido melhores.

A referência é sempre ele: o rei Pelé.

Agora há um documentário na Netflix para nos provar a realeza de Edson Arantes do Nascimento.

O biópico ‘Pelé’ estreou entre nós e resgata a carreira do antigo futebolista entre os 3 Mundiais conquistados no períod de 1958 e 1970 e tenta não fugir aos temas mais controversos na carreira da lenda.

Como a falta de posição do jogador sobre temas políticos e sociais, como o racismo.

 

 

Ou quando o país viveu um dos períodos de maior repressão durante a ditadura a seguir ao tricampeonato mundial em 1970 e Pelé aperta a mão ao general Emílio Garrastazu Médici.

“Mudou alguma coisa para si com a ditadura?”, pergunta o realizador Tryhorn.

“Não, o futebol continuou o mesmo. Para mim, pelo menos, não mudou nada”, responde Pelé.

Mais tarde é-lhe perguntado se tinha conhecimento sobre os abusos cometidos pelo governo nos anos de chumbo.

“Se eu dissesse que não sabia, estaria a mentir. Mas era difícil saber o que era verdade e o que era mentira.”

 

Pelé anos 80, longa vida ao Rei

 

O doc arranca com uma cena cruel, mas verdadeira: Pelé chega a uma sala vazia amparado por um andarilho.

Temos agora a noção de que Pelé é humano: Edson a fazer de Pelé e a contar-nos o percurso até ao trono.

Há uma única cadeira no salão, ele senta-se, desevencilha-se da muleta com desprezo mas aceita a condição. Vamos a isto, a onde tudo começou.

 

“Apenas três pessoas calaram o Maracanã: Sinatra, o Papa e eu”

 

Temos os jornalistas Roberto Muylaert, José Trajano, Paulo César Vasconcellos e Juca Kfouri a falarem sobre a trajetória do futebolista até se tornar uma lenda.

E o músico Gilberto Gil e a deputada federal Benedita da Silva (PT) a puxarem pelo ídolo comoo um emblema do Brasil negro.

Cruzam-se todos, jornalistas, artistas e políticos: a emancipação do brasileiro através de Pelé, um povo com o complexo vira-lata que passa a ter orgulho em si

E há claro os futebolistas Clodoaldo, Rivellino e Jairzinho. Ou o antigo presidente da república Fernando Henrique Cardoso.

 

O melhor chapéu, cabeceamento e finta foram há 50 anos

 

A produção britânica da agência Pitch International é dirigida por David Tryhorn a dar-nos a última dança do Rei.

Claro que não falta o essencial.

Estão lá os momentos emblemáticos, como o milésimo golo e o discurso no Cosmos quando Pelé disse “Love, love, love” e citou o verso da canção de Caetano Veloso.