Há coisas que os americanos sabem fazer. E o US Open é uma delas. É o último Grand Slam da temporada e portanto ninguém vai querer estar mal. Djokovic é, logicamente, o favorito número um.

Já todos fomos a festas ditas betas, certo? Claro que sim. E por muito que nos possamos sentir à parte, por muito que aquela não seja a nossa praia, há algo inegável: os betos sabem dar festas, os betos percebem de catering. Um pouco como os norte-americanos que podem, para muito boa gente, ser considerada gente louca e com a mania das grandezas, tudo certo, mas no que toca aos eventos desportivos de escala internacional, aí eles são craques.

Foram eles que insistiram na ideia das sessões nocturnas, isto é, o ténis como entretenimento, claro – mas o que é que não o é nos EUA? –, mas também mais oportunidades para os trabalhadores diurnos que não podiam meter férias para ver o US Open.

Ainda nem se jogava em Flushing Meadows, mas sim no West Side Tennis Club – também em Queens, Nova Iorque – quando, em 1971, se jogou o primeiro encontro nocturno do US Open. É claro que os jogadores desataram a criticar a organização do torneio, culpavam a má visibilidade, mas também sabemos que o ambiente que se vive numa sessão nocturna de um Grand Slam é de outra natureza, é uma fruta diferente, um bocado aquela lógica de parar para ver, de dedicar todo o nosso foco àquele jogo, algo mais difícil de atingir durante o dia.

À parte da estupidez de marcas, da chuva que sempre aparece – nesse sentido é como ir ao Vodafone Paredes de Coura ou ao NOS Primavera Sound, já sabemos que pelo menos um dia vai chover –, da estupidez do tiebreak no quinto set, o US Open é um espectáculo. É claro que, aliás como a NBA e tantos outros conteúdos desportivos que passam na nossa televisão ou computador, não nos faz bem.

Dormimos pior, ou quase não dormimos; podemos gritar às quatro da manhã com uma jogada genial e os nossos vizinhos podem não achar muita piada; é fácil encontrarmo-nos a comer coisas gordas para não roer as unhas durante os jogos dos tenistas preferidas. Dá para tudo o US Open e quase tudo coisas que não devem aumentar a nossa esperança média de vida. Mas o espectáculo, a beleza de ver jogos irrepetíveis em directo, isso, camaradas das noitadas que nos estão a ler, isso ninguém nos tira.

É tradicional o US Open ser o Slam onde mais surpresas acontecem. Basta dizer que ninguém é bicampeão desde que Roger Federer venceu 5 torneios consecutivos de 2004 a 2008 – e diga-se já agora que nunca mais repetiu sequer um título, será que é este ano, aos 38? Será Djokovic capaz de quebrar o enguiço? Rafa Nadal também deve acreditar, num torneio que já venceu por três vezes (2010, 2013 e 2017), embora na última vitória Djokovic não estivesse presente.

Cilic (em 2014) e Wawrinka (em 2016) também devem suspirar por um regresso aos tempos em que ganhavam Grand Slams, mas as possibilidades agora são bastante reduzidas. Thiem, Tsitsipas, Auger-Aliassime, tantos outros nomes querem voar. Mas é de Daniil Medvedev de que se fala. O actual número cinco do mundo venceu o Masters 1000 de Cincinnati depois de eliminar o sérvio, número um mundial, nas meias-finais. E na semana anterior, em Montreal, só perdeu para Nadal, na final.

As fichas devem estar quase todas no russo. Mas bem sabemos como a raquete pode pesar quando as luzes apontam para nós. E logo estas, de Flushing Meadows. Que venham de lá essas noites mal dormidas.