Há religiões que devem ser seguidas à risca. E no que toca à Premier League sou – crença partilhada por milhões de pessoas à escala mundial – profundamente católico ou, se preferirem, profundamente praticante.

O Boxing Day, nesta ordem de ideias, é uma espécie de Missa do Galo, a cerimónia mais importante do calendário. Fugindo agora à ideia de religião – até porque há provas da existência deste Deus – este é, para mim, o dia que mais gosto me dá, um sonho de dia, que se resume a uma estadia do sofá do meio-dia às dez da noite, com breves pausas para cumprir as necessidades fisiológicas, levar o cão a cumprir, também ele, as suas. Talvez mais uma ou outra pausa para cigarro, esse vício que neste dia não dá jeito nenhum.

É até provável que, quando o último jogo acabar, sinta dores de costas, aquelas dores de quem passou demasiado tempo na horizontal, portanto, uma dor de orgulho, daqui ninguém me tirou, vi os golos todos e as repetições quinze vezes, ah pois. Confesso que a noite de dia 25 foi longa e que para ver o senhor Mourinho, primeiro jogo do dia ao meio-dia e meia, foi preciso despertador. Mas lá se fez. E o Brighton até ajudou a dissipar o sono, com uma primeira parte intensa e aliciante, até que na segunda – ninguém quer ser treinador por Mourinho e ir para o intervalo a perder – o Tottenham foi para cima e virou o resultado com um belíssimo golo de Dele Alli.

Às quinze horas, o complexo foi escolher um jogo para ver. Há falta de melhores ideias um ecrã a ver se o Chelsea voltava a perder em casa para conseguir a pior prestação em casa do século XXI durante uma temporada, e o outro ecrã a ver se a língua de Arteta já chegou aos ouvidos dos jogadores do Arsenal. Ainda com tempo para, volta não volta, mudar para o Everton, o novo clube italiano da Premier League, que ontem, na estreia de Carlo Ancelotti já ganhou por 1-0, como se esperava, sem que grande coisa para isso tenha feito.

Como devem perceber, tantos ecrãs e ângulos diferentes obrigaram-me a algumas mudanças de posição, estar mais de lado e menos de barriga para cima, para tudo conseguir acompanhar. O Chelsea até me deu má disposição, de tão mal que jogaram, em mais uma derrota limpinha, desta vez diante do Southampton. O Arsenal de Arteta continua a não conseguir vencer, empatou fora diante do Bournemouth. E eu lá me virei, novamente, de barriga para cima.

Pelo meio, claro, mandei vir comida, que uma pessoa nestes dias não pode parar para cozinhar, mesmo que tivesse vontade, coisa que não tinha, não tenho televisão na cozinha, daí que nada feito. Mandei vir uma gordice cura ressaca e prosseguir até Old Trafford, onde se esperava mais uma derrota da equipa de meio da tabela: o Manchester United. Mas não, houve uma enorme surpresa em Manchester, com o Newcastle, favorito à partida, e que até começou a ganhar, sucumbir diante de um United inspiradíssimo, com sobejas exibições de Martial, Rashford e Greenwood. Este último é um jovem de 18 anos que deviam agarrar com unhas e dentes.

Em caso de terem uma casa fria, como a minha, também aconselho uma manta daquelas que cobrem ursos que gostam de ver futebol ao quentinho, e o aquecedor ligado, ao invés da lareira que não possuo.

E o melhor, como para aqueles que adoram fazer este programa de sofá mas com filmes de natal – que estupidez, qual é o intuito? – vem sempre no final. Só que o último Harry Potter aqui troca-se por um jogo entre os dois primeiros: Leicester x Liverpool. Todos os outros clubes deviam estar empolgados a ver o jogo, como que a desejar a primeira derrota da turma de Klopp à décima oitava jornada.

O Liverpool tinha acabado de conquistar o Campeonato Mundial de Clubes, no Catar, e esperava-se que viessem algo cansados. Qual quê, cansado fiquei eu, no sofá, de tanto os ver correr. Foi um massacre de intensidade, de qualidade de jogo, um atropelo que acabou em 0-4. São 13 pontos à maior e um jogo a menos, sendo que se o City ganhar hoje são 11 pontos a mais e menos um jogo. Mandem vir as faixas. Podem cortar o centro da cidade de Liverpool, que o título já não lhes escapa.

O Boxing Day, ainda é o que era, o melhor dia de sempre. E numa altura que muito se contesta o atribulado calendário desta competição, queria só pedir para repensarem bem a coisa. Bem sei que é um exagero de jogos e que todas as pessoas no mundo deviam poder passar este tempo de festas com a sua família, mas pronto, acabem com as duas jornadas depois do Boxing Day e mantenham esta data incólume, por favor. 27 Ninguém quer fazer uma criança feliz. Porra, as minhas costas.