De regresso à liderança do ranking ATP, o sérvio esteve à beira da morte, como quem diz, à beira de perder o seu oitavo título em Melbourne e o seu 17º slam da carreira. Sobreviveu e acabou por vencer Dominic Thiem em cinco sets (6-4, 4-6, 2-6, 6-3, 6-4). Vénia ao rei.

Ao segundo jogo, o primeiro break. Djokovic parece encarreirar para um triunfo em sets directos sem grandes solavancos, pelo menos a avaliar pelos primeiros minutos de jogo. Mas, calma lá, respeitinho se faz favor, do outro lado da rede estava Dominic Thiem, aquele que, em existindo um núcleo mais alargado: o Big Five, com certeza lá constaria. Thiem viria a devolver o break de Nole, mas sucumbiu com uma dupla-falta, ao segundo set point do primeiro set. Anjinho, diria o adepto mais comum, o adepto anti-Djokovic.

Mas se há coisa da qual não podemos acusar Dominic Thiem é de ser um pré-derrotado, aquele que ainda não perdeu e já desistiu, aquele que amua, que se desvirtua. O austríaco cerra o punho e bate na bola, é essa a sua postura constante e no segundo set o seu punho ganhou, braço-de-ferro em mesa de bar-cabaret cai para o lado do quinto pré-designado. Curiosamente, é com uma dupla-falta de Djokovic que Thiem começa a virar isto.

As esperanças invadiram a Rod Laver Arena de colete reflector vestido. E Thiem começou a fazer o que sabe melhor: disparar winners. Esquerdas ao longo, direitas inside-in e uma consistência ao fundo de court que só parecia dar derrocada quando o sérvio fazia – e bem que o fez, o jogo todo, parecia que estávamos em Paris, ou num outro qualquer court de terra batida – amortis. Nesse aspecto, e ainda que o austríaco tenha um jogo de pés incrível, é caso para dizer que isto é hard para Thiem.

 

 

Num momento, Nole é o patrão disto tudo, no outro, parece um miúdo amuado. Minutos antes havia feito uma série de jogadas que o recolocaram na luta pelo set, naqueles picos de intensidade e perfeição próprios dos melhores de sempre. Depois, recebe um aviso do árbitro por violação do tempo de serviço e, quase parecia de propósito, de seguida, leva mesmo a penalização de passar para o segundo serviço.

É aí que perde a cabeça, é aí que perde o segundo set – e provavelmente o terceiro, que também viria ver voar sem conseguir agarrar – e, ao dirigir-se para a cadeira, toca nos ténis do árbitro, claramente em abuso de poder. O senhor intocável ainda conseguiu proferir as seguintes palavras: “Ficaste famoso, muito bem, sim senhor”.

 

 

É por esta altura que surge um belo cartaz nas bancadas: “Carpe Thiem”. Parece indicado para este momento, esperemos que Djokovic veja bem ao longe. Quando Thiem vence o terceiro set sem grandes problemas todo o mundo deve ter pensado: “Ai ai ai, tu queres ver”. Só que não. O sérvio, naquilo que parece muitas vezes um bluff, mas que pode bem ser gestão de esforço e capacidade de leitura dos momentos de jogo, impõe-se no quarto set.

O momento decisivo é o sétimo jogo do quinto set, que durou perto de 8 minutos e viveu uma série de vantagens nulas. Thiem parece ter caído, como quem fica meio atónito com uma recuperação destas, de um dos maiores nomes de sempre da modalidade. Esperemos que fiques por cá muito mais tempo, Nole.

O sérvio vence o seu título número oito na Austrália e confirma que este é um dos seus habitats naturais. Isso e esta coisa de começar bem o ano. Fica sempre bem quando as passas correspondem aos pedidos feitos no réveillon.