Longe vão aos tempos em que as equipas de Viena (Austria e Rapid) dominavam o futebol austríaco. O Salzburgo, movido a Red Bull, é hexacampeão do país e o grande responsável pelo ressurgimento da bandeira vermelha e branca em fases adiantadas das competições europeias.

Porém, nem tudo dura para sempre. Há, este ano, um outsider que lidera o campeonato e pode destronar o domínio da equipa de Jesse Marsch.

Falamos do LASK Linz, liderado por Valérien Ismaël, treinador francês de 44 anos, que soma neste momento mais três pontos que o Salzburgo e que está nos oitavos-de-final da Liga Europa. É quase certo que aí já pouco há a fazer, tendo em conta que perderam em casa 0-5 com o Manchester United na primeira mão disputada em Linz.

Foi um jogo memorável do United, um dos melhores da época, que arrasou uma equipa reconhecidamente muito bem organizada, com bom futebol, capacidade de jogar mais na expectativa ou mais em posse. Seria, obviamente, injusto, gravar esse último jogo do Linz antes da interrupção, como a fotografia da época.

Este ano, já os vimos a perder em Alvalade (2-1) apesar de um jogo muito bem conseguido, onde caíram por duas distracções defensivas em coisa de cinco minutos. Mas essa foi a única derrota da turma de Ismaël na fase de grupos, tendo apenas somado mais um empate diante do PSV, em Eindhoven.

Tudo o resto foram vitórias, inclusive uma delas por 3-0 frente ao Sporting. Depois disso, já despachou o AZ Alkmaar, que reparte, neste momento, a liderança da Eredivisie com o Ajax. Haja o que houve, esta é já uma temporada de sonho para o LASK.

E, portanto, sim, alguma responsabilidade terá que ter Valérien Ismaël. Que parece não abdicar desta nova solução encontrada por muitos treinadores que jogam com três centrais e cinco defesas no momento defensivo, num 5-3-2 que se desdobra em 3-5-2 no momento de ter bola. Um meio-campo povoado e que gosta de contacto, um ataque rápido e letal, é por aí que o ex-central francês parece definir a sua filosofia de jogo.

O seu pai nasceu no Guadalupe e a sua mãe em França, cedo, enquanto jogador, se mostrou na equipa da sua terra: Estrasburgo. Na cidade que é das casas do Parlamento Europeu também se jogo à bola.

Com uma estampa física apreciável, o central de 1,91m estreou-se pela equipa principal em 1993, aos 17 anos. E, no ano seguinte, foi um dos elementos que disputou, em Espanha, o Campeonato de Europa sub-18 da UEFA, onde lhe bateu o azar de calhar no grupo de Portugal, que se viria a sagrar campeão, em penáltis, contra a Alemanha, uma equipa nacional com nomes como Quim, Nuno Gomes, Beto, Bruno Caires, Mário Silva, treinada por Agostinho Oliveira, pois claro. Não chegou a defrontar Portugal, mas esteve lá a ver como já na altura Nuno Gomes era dos melhores avançados do mundo a jogar de costas para a baliza.

Já enquanto jogador, Ismaël prometia. Tinha 17 anos e fez três épocas e meias muitas vezes enquanto titular do Estrasburgo e foi contratado pelo Crystal Palace, que tinha acabado de subir à Premier League e que, no ano seguinte, voltaria a descer. Fez apenas 16 jogos, não foi feliz e voltou para França, desta vez para o Lens, sabendo que pode, pelo menos, dizer que jogou em Selhurst Park, o estádio onde Cantona deu o célebre pontapé àquele fã doido, apenas uns dias antes. Ainda voltaria ao coração, a Estrasburgo antes de passar a perna à França, rumando à Alemanha, para a melhor fase da sua carreira enquanto jogador.

De resto, a Alemanha era-lhe familiar, já que Estrasburgo é quase na Alemanha e a sua mãe é daquela zona da Alsácia que ora foi francesa, ora foi alemã.

Aterrou no Werder Bremen, emprestado pelo Estrasburgo, e na primeira época fez 42 jogos, marcou cinco golos e foi um dos principais elementos da época de ouro do Bremen, que se tornaria campeão alemão e vencedor da taça nesse ano. Uma equipa que contava com Aílton, Klasnic, Nélson Valdez, Charisteas, Johan Micoud, Baumann, Ernst, muitíssimo bem liderada por Thomas Schaaf.

No ano seguinte, ainda que tenham contratado Klose, foram apenas terceiros, voltando a hegemonia do Bayern, clube que viria a contratar Ismaël depois de mais uma época goleadora: foram 9 tentos, em 2004/2005. Portanto, em 2005/2006 voltaria a vencer a Bundesliga, agora pelo Bayern Munique, onde fazia dupla de centrais com Demichelis e tinha como colegas gente como Kahn, Lahm, Schweinsteiger, Ballack, Makaay e com Felix Magath no banco.

Depois disso, foi o fim. Perdeu espaço na Baviera, por onde ainda ficou três anos, com apenas um jogo somado pela equipa principal. Teve ainda tempo para jogar (pouco) por mais duas épocas e arrumar as botas no Hannover 96, onde se iniciou como treinador da equipa secundária. Esteve por lá dois anos e foi treinar as reservas do Wolfsburgo. Em 2014/15 teve a sua primeira grande oportunidade como treinador principal do Nuremberga, no segundo escalão alemão, onde até treinou Daniel Candeias por empréstimo do Benfica.

Mas a estadia durou apenas 3 meses, onde somou apenas 4 vitórias. Voltaria às reservas do Wolfsburgo, onde chegou a treinador principal em 2016/17. Está, desde o início da temporada 2019 no lugar que sempre lhe pertenceu: no sucesso. A vida dá voltas e voltas, mas Valérien Ismaël é a prova de que estamos todos a tempo. Se o LASK for campeão será o seu segundo título de campeão de sempre. Já não levantam o troféu desde 1965.