Por norma, não damos grande troco a oportunistas.

Não gostamos da sua falta de ética, nem da facilidade com quem criam partidos políticos. O seu aproveitamento sem mácula irrita-nos. Mas quando o oportunista se chama Filippo Inzaghi, um dos grandes pontas-de-lança do futebol italiano e europeu das últimas décadas, talvez a conversa seja outra.

Por um lado, porque sabemos que não se vai candidatar à presidência da república, por outro, porque o oportunismo, quando é belo e faz golos, nos aquece o coração.

O cínico avançado, como tantas vezes foi apelidado, é o actual treinador do Benevento, equipa da Serie B que no passado dia 29 de junho garantiu o regresso à Serie A, em 2020/2021 e o título de campeão também já não lhe foge.

Sexta-feira 10 julho 20h00
Itália – Série B
Benevento vs Veneza
1,83 – 3,83 – 3,65

 

Falamos de uma equipa que, no ano passado, comandado por Cristian Bucchi, foi terceiro na fase regular da Serie B e depois viria a perder com o Cittadella no playoff, que viria a sucumbir perante o Verona, hoje na Serie A.

E que em 2017/18 somou apenas seis vitórias no primeiro escalão, e que só somou a primeira vitória à 19ª jornada, ainda que se tivesse reforçado bem para essa temporada, com nomes sonantes como Cheick Diabaté, Filip Djuricic, Achraf Lazaar, Bacary Sagna, Berat Djimsiti.

Ou seja, teve de cair de fundo e agora renasce, com um plantel bem mais modesto e pela mão de Pippo Inzaghi.

São apenas duas derrotas — uma delas na última jornada, já depois alcançarem a promoção e perante o Crotone, actual segundo classificado, num jogo onde Simy Nwankwo, ex-Portimonense e ex-Gil Vicente fez um hattrick; já leva 16 golos e é o terceiro melhor artilheiro da divisão — e sete empates.

 

 

Alternando entre um 4-3-3 e um 4-2-2, e com muita experiência patente em nomes como Luca Cardirola (ex-Bremen e Inter), Përparim Hetemaj (ex-Chievo e AEK), os avançados Marco Sau e Massimo Coda, o médio-defensivo Schiattarella, ou o eterno lateral Christian Maggio e ainda o talento de Roberto Insigne, irmão de Lorenzo. Vejamos se Pippo fica por aqui e com que reforços para atacar a nova época.

Olhemos então, mais concretamente, para a história deste oportunista.

Filippo Inzaghi nasceu em Piacenza, cidade da Emília-Romanha, a 70 km de Milão. E foi no clube da cidade natal que começou a jogar.

Em 1994/95, fez 17 golos na Serie B que o Piacenza conquistou (e ainda antes, no Verão de 1994, viria a vencer o Euro Sub-21 a Portugal, numa selecção com João Pinto, Figo, Rui Costa, Brassard, Rui Bento, Capucho, Abel Xavier, etc) e no ano seguinte foi contratado pelo Parma e a coisa não correu bem.

 

 

Foi resgatado, em 1996/97, pela Atalanta, onde viria a marcar 24 golos e a sagrar-se o melhor marcador da Serie A, a última vez que o conseguiu — ainda que seja o homem com mais hattricks na competição, somando 10.

Seguiram-se 4 anos na Juventus, onde jogou com os melhores (incluindo o lateral-esquerdo português, Dimas) e foi treinado pelos melhores (Lippi, Ancelotti).

 

 

Em 2001 muda-se para o Milan e encontra o amor da sua vida. Onde ficou até 2012, quando arrumou as botas, fazendo 130 golos em 305 e jogos — dizem as más línguas que foram todos dentro da pequena área.

Ganhou duas Liga dos Campeões, duas ligas italianas, um Campeonato do Mundo de Clubes, duas supertaças europeias, uma Taça Italiana, três supertaças italianas. E melhor: um Campeonato do Mundo pela Itália, em 2006, onde só fez um jogo e, pois claro, marcou, uma vez mais a vir do banco, como tantas vezes acontecia no Milan.

 

 

Foi precisamente nos rossoneri que se estreou como treinador, primeiro nas camadas jovens e depois na equipa principal.

Em 2014/2015 levou o Milan a um pobre — mas já habitual — décimo lugar, numa equipa cáotica e pouco coesa com Torres, Ménez, Nigel de Jong, Muntari, Essien, Rami, Mexès, Alex.

Convenhamos que não lhe deram grande coisa. Em 2016/17 aparece nos últimos jogos do Veneza e conquista a Serie C.

No ano seguinte, já na Serie B, conquista um belo quinto lugar — sobretudo para alguém que acabou de chegar a este escalão — e é eliminado pelo Palermo no playoff de promoção à Serie A.

Essa boa prestação levou-o ao Bolonha, de onde foi despedido depois de somar apenas duas vitórias em 21 jornadas. O resto é história, que é igual a dizer que é Benevento. Sabemos a genialidade da sua relação com a linha de fora de jogo. Vejamos o que será capaz de fazer com a linha de despromoção — se é que fica por estas bandas.