Em momentos de grande reflexão sobre a vida, e de como não aguentamos o peso das suas superficialidades – como ter de ir deixar o lixo à rua – convém pensar em Alphonso Davies, o jovem craque do Bayern de Munique.

O canadiano nasceu num campo de refugiados em Buduburam, a 44 quilómetros de Ghana, depois dos pais fugirem da guerra civil na Libéria. Pois, não estava à espera que este lateral esquerdo, que vale actualmente 45 milhões de euros, segundo o Transfermarkt, e que renovou agora com o Bayern até 2025, tivesse uma história destas, mas tem. Mas também não é sua culpa, caro leitor, por isso pode ir deitar o lixo e refilar à vontade, que aqui ninguém julga ninguém.

Pois bem, a família voou para o Canadá, mais propriamente para Edmonton em Alberta, quando Davies tinha apenas cinco anos, porque era isso ou andar armado à espera de levar um tiro, ou correndo o risco de morrer à fome. Começou a mostrar numa escola católica (mas como futebolista, não como padre).

 

 

E Davies não tinha só jeito para o futebol, não, era bom a correr, a jogar basquetebol ou outro desporto qualquer. Não havendo muito dinheiro em casa, Davies foi parar à Free Footie, uma liga de miúdos que não tinham dinheiro para pagar quotas ou equipamento. Pouco tempo depois, já estava a formar-se como jogador de futebol na St. Nicholas Soccer Academy.

“Para ser honesto, eu jogava porque era divertido, e para me manter activo, longe de problemas”, confessou o jogador canadense, citado pelo site oficial da Bundesliga. Só arranjou mesmo um problema: ser muito bom no que fazia, o que o levou, aos 15 anos, a ser o primeiro jogador nascido na viragem do século, a jogar na MLS pelo Vancouver Whitecaps – de 2016 a 2018, fez 81 jogos e marcou 12 golos.

Depois vieram as internacionalizações com a camisola do Canadá – a 14 de junho de 2017 fez a sua estreia, uma semana depois de ter obtido a nacionalidade.

 

 

Aos 19 anos, chegou a oportunidade de rumar para a Alemanha. E se não percebesse à primeira, percebeu à segunda, quando percebeu que o Matt Hummels o seguia no Instagram – e que até lhe enviou uma mensagem. “Primeiro não acreditei, mas depois vi a marca azul que comprova o status daquela conta, e pensei: sim, isto é mesmo o ‘real deal’!”, confessou, em entrevista à BBC Sports.

Já vestiu 29 vezes a camisola dos bávaros e já conseguiu passar o recorde de jogar mais rápido, como admitiu outro prodígio do clube, o francês Kingsley Coman, que detinha o record desta época, com 22.16 quilómetros por hora corridos.

“Sim, é ele, nós já fizemos uns testes no Bayern. Se for velocidade em slalom ou voltar para trás sou eu, mas em linha recta é o Davies”, admitiu Coman à Eurosport. É claro que começou nas reservas ainda que seja muito rápido mas, mais uma vez, voltou a ser o primeiro millenial, nascido nos anos 2000, a marcar um golo com as cores vermelhas alemãs – e logo substituindo “só” um dos melhores laterais do mundo, David Alaba (quase 150 jogos na liga alemã, caro leitor), na esmagadora vitória frente ao Mainz por 6-1, em março do ano passado.

É que até a própria SkySports já começa a dizer que Alphonso já consegue ser melhor do que Alaba, comparando a estreia do primeiro com a estreia de David (em 2011/2012) e com a daquele que é considerado o melhor lateral esquerdo do mundo: Andrew Robertson do Liverpool.

 

 

Davies, olhando para uma comparação entre os três, consegue ser o mais ofensivo de todos. Está envolvido num golo a cada 318 minutos, enquanto que Alaba, no seu ano de estreia, estava a cada a 383 minutos e Robertson, no seu ano de estreia em 2017/2018, estava a cada 324 minutos. E é também o que marca com mais facilidade.

E só mesmo para comprovar que este miúdo é um talento, convém dizer que em praticamente todas as categorias futebolísticas, Davies é melhor do que os seus concorrentes na Bundesliga (Marcel Halstenberg, Raphael Guerreiro ou Achraf Hakimi). A melhor parte é que só quando chegou à Alemanha é que Davies começou mesmo a jogar como lateral esquerdo, enquanto os outros fizeram a sua carreira naquela posição.

Parece que, felizmente, a única arma que Davies teve de pegar foi no seu corpo. Os outros que se cuidem.

 

Firmino, do pobre Trapiche da Barra ao glamour de Liverpool