É quase impossível imaginar um jogador de futebol ser impedido de jogar. Mas foi o que aconteceu a Roberto Firmino Barbosa de Oliveira, ou, se quiser, Roberto Firmino, só. Ou então o número nove do Liverpool, que já conta com 44 internacionalizações pelo Brasil, e 13 golos marcados.

É que a mãe de Firmino, por viverem em Maceió, capital do estado de Alagoas, e zona perigosa, não o deixava ir dar uns toques de bola, por viverem muito próximos de uma favela. A solução era a de sempre, igual à de milhares de miúdos: saltar o muro e ir jogar para a rua.

E Firmino chegou mesmo a escapar de casa para ir treinar no seu primeiro clube, o Flamenguinho. Em casa, só jogava bola com as mãos, na playstation 2, jogando com o Corinthians.

A BBC Sports foi até ao bairro, Trapiche da Barra, falou com alguns amigos do brasileiro para fazer um desenho do percurso deste jogador. Houve sempre algum medo que fosse por maus caminhos, mas por ser tão obcecado com o futebol, ao mesmo tempo que era tímido, tendo sempre só um sorriso para dar, essa acabou por nunca ser uma opção.

O “humilde”, como dizem os pais, vem, pois claro, de uma família pobre, sendo que o pai, um vendedor de rua, era o único que trazia rendimentos para casa.

Foi começando a dar os passos rumo à profissionalização na Escola Estadual Professor Tarcisio de Jesus, graças também a um treinador, Ari Santiago, que, depois de ver que três alunos tinham morrido, decidiu criar uma equipa de futebol para mostrar outro caminho, que não o da violência. Firmino só fazia amigáveis nesta nova equipa porque, entretanto, já tinha assinado com o Clube de Regatas Brasil.

Num jogo entre as duas equipas, acabou mesmo por marcar, num massacre de 8-0. No fim, o sorriso para gozar ou como forma de expressão recorrente.

Seguiram-se dois anos no norte do Brasil a jogar em campeonatos de juniores. Mas foi em São Paulo, em 2008, que realmente tudo começou, quando assinou pelo Figueirense, através de um teste que durou 30 minutos – e que geralmente pode durar dias ou mesmo um mês inteiro. Só houve uma alteração: passou do meio campo mais para o ataque.

Um ano depois foi fazer testes a Marselha, que correram mal, durante uma escala entre aviões em Espanha. Foi preciso mais um mês para voltar a França, mas o clube francês acabou por recusar pagar um milhão de euros pelo jogador brasileiro. Um erro, claro.

Foi passando o tempo, e Roberto começou a dar ainda mais nas vistas, sendo nomeado o jogador mais prometedor da Série B do Brasil, com Arsenal e PSV a tentarem “raptá-lo” da terra das caipirinhas. Acabou por assinar pelo Hoffenheim por quatro milhões de euros. Eis que chega o ano de 2015, mais 29 milhões de euros, e Firmino chega a Anfield, sendo que Manchester United e Manchester City também se tinham metido na corrida.

Agora já tem um Liga dos Campeões no bolso, uma Copa América e já é um dos rostos mais conhecidos da seleção, com uma avaliação de transferência a rondar os 90 milhões de euros.

Ah, e é o primeiro brasileiro a marcar 50 golos na Premier League – e é por isso que Klop diz que não conhece jogador igual.

Nas entrevistas, Firmino manda sempre o seu sorriso, continuando a ser o miúdo tímido, de resposta curta, e de pé rápido. E também, o atacante que dá mais assistências: 50 em 228 jogos, mais onze do que qualquer jogador que passou pelo Liverpool.

Só nunca jogou num dos grandes do Brasileirão, e isso talvez justifique a ausência de uma estatueta com a sua cara no Museu do Estádio Rei Pelé. Os brasileiros podem não ter ultrapassado o facto de Firmino ter marcado o golo da vitória frente ao Flamengo, de Jorge Jesus, no Mundial de Clubes do ano passado. Fica a dúvida: como é que será Firmino hoje na PlayStation? É que na realidade já bem sabemos.