De vez em quando damos conta de que há jogadores portugueses que ainda não penduraram as botas, mesmo que já tenham saído do radar lusitano, quer da seleção quer do, enfim, olhar de todos nós.

E que, mesmo com uma carreira com vários carimbos estrangeiros – Lecce, Livorno, Dínamo Kiev, Málaga, Roma e Gestafe – não mereceram a confiança de Sporting, Porto e Benfica. É o caso de Vitorino Antunes. Peço desculpa: Vitorino Gabriel Pacheco Antunes, em bom português.

Ao fim de três temporadas (sendo esta a última), 69 jogos, 1 golo, e uma lesão gravíssima no joelho (ruptura de ligamentos) o ano passado, o lateral esquerdo diz adeus aos Azúlon. Ou seja, a La Liga regressa e já despachou um português.

Isto era caso para se fazerem muitas manchetes de jornais, quiçá até marcar uma reunião de emergência entre primeiros-ministros para resolver este possível conflito entre hermanos. Mas não. Antunes não é Ronaldo, nem sequer é Gonçalo Guedes. Tem 33 anos. Está em fim de carreira – ainda que diga que jogaria tranquilamente mais 4 ou 5 temporadas.

Sábado 18h30
Espanha – La Liga
Getafe vs Eibar
1,80 – 3,20 – 4,70

 

E onde é que Antunes jogaria tranquilamente mais uns aninhos? Em Portugal. Pois é. É que começou no Freamunde – clube do coração, onde deu os primeiros passos – depois saltou para o Paços de Ferreira. Em 2007 chegou-se a escrever que aquele “era o ano louco” de Antunes, tal era o destaque que tinha tido na equipa dos castores.

E é a jogar por esse clube que decide ir ( ou que decidiram por ele) para Itália (por empréstimo primeiro à Roma e depois ao Lecce) para, três anos depois, voltar para Portugal, mas desta vez rumo ao Leixões: 12 jogos.

O mais curioso é ver que, infelizmente, as razões para a falta de partidas no currículo teve também como causa as lesões: olhando para este vídeo do arquivo da RTP1, percebe-se que Antunes, que esteve parado 4 meses entre 2009 e 2010, só queria mesmo era jogar. “Queria-me mostrar novamente, que não desaprendi. Ainda estou aqui para a luta”, conta a certa altura.

Não desaprendeu, nem desistiu de lutar, mas também não convenceu – voltou outra vez para Itália, desta vez para o Livorno, por empréstimo. Só que nessa altura já o Roma tinha adquirido o passe do português (1,5 milhões de euros para os pacenses) em 2008.

Portanto, habituou-se a estar num patamar superior, até chegou a pisar os relvados da Champions mas não chegou. Tanto que na temporada de 2011/12 foi novamente emprestado, desta vez para o Panionios (10 jogos, um golo).

Seria caso para desistir, com uns tenros 25 anos, mas não. Volta para o Paços de Ferreira de Paulo Fonseca (em 2012/2013 ficaria num espectacular terceiro lugar da liga portuguesa) e consegue chegar às 20 partidas.

Quando foi entrevistado, já não dizia que tinha de mostrar que não desaprendeu, mas sim “chegar outra vez ao topo”, como afirmou à RTP1 em 2012. “Penso que se calhar, saí muito cedo. Tinha, na altura, 20 anos, e os dois primeiros anos correram bem, mas depois não tive muitas oportunidades”, confessou, dizendo até que teve, nessa época, mais ofertas, mas que preferiu ficar na capital do móvel por ser “perto de casa” .

Pois bem, mas não fica durante muito tempo – é novamente emprestado, mas agora para mais perto, indo para o Málaga, “um sonho tornado realidade”.

Pega de estaca e na segunda temporada faz 38 jogos, já no clube espanhol como jogador oficial. E se normalmente “não há duas sem três”, com Antunes não houve três para ninguém, porque acabou novamente emprestado, desta vez para bem longe: Dínamo de Kiev.

Aí sim, fica quase três anos completos, ganha uma liga, uma supertaça e uma taça e consegue consolidar a sua carreira, mesmo não ganhando muita atenção da seleção nacional. Convocado ali e aqui, tem alguns jogos com a seleção das quinas (13 jogos, um golo, tendo estado presente na qualificação para o Mundial de 2014), mas nunca chegou a ir a um Europeu ou a um Mundial.

A “última” oportunidade chega pelas mãos do Getafe, já com 30 anos. Faz duas boas temporadas (35 jogos em 2017/2018 e 31 na seguinte) com o contrato a terminar este ano. Sai, não pela porta pequena, mas com a esperança de que possa, outra vez, voltar a Portugal. Ele, um grande fã de Roberto Carlos (jogador brasileiro, não o cantor), e um não tão fã da Federação Portuguesa de Futebol.

E porquê? Porque o ano passado sofreu a tal lesão gravíssima e diz que não recebeu grande atenção nem da FPF nem do próprio Getafe, como confessou. E atenção que a prosa dura é longa.

“A verdade é que permitiram que fosse tratar-me a Portugal mas, depois, nos três meses em que lá estive, não recebi uma única chamada [do Getafe]. Curiosamente, quando estava em tratamento, fui fazer recuperação à piscina do hotel de Espinho onde estava a seleção que jogava no Porto para a Taça das Confederações. Tive uma pequena conversa com um adjunto de Fernando Santos, mas pouco mais do que isso. A impressão que tenho é que nem todos os jogadores que defendem a Seleção são tratados da mesma forma e isso é mau, se defendes a camisola do teu país uma ou cem vezes, tens direito a ser considerado de maneira idêntica”, contou.

Palavras duras, bem avisámos. Chega a ser estranho – e difícil de entranhar – ouvir este discurso, depois de vermos imagens de Antunes, depois da sua longa paragem, a entrar no relvado a chorar, ovacionado pelos fãs do Getafe.

E agora, o que se segue?

Jogador livre, com um valor de mercado a rondar os 1,60 milhões de euros (chegou a valer 6 milhões de euros), segundo o Transfermarkt.

Na indefinição que é o campeonato português, não se sabe se algum clube poderá repescar Antunes novamente para o futebol português. Só há uma certeza: o lateral ainda não desistiu de lutar.