Com linhas e linhas a endeusar Jorge Jesus, mais a inconsistência do Benfica, mais as saídas nocturnas do Porto, mais o Sporting a ser Sporting, temo-nos esquecido todos de referir o excelente campeonato que o Marselha de André Villas-Boas está a realizar.

É certo – o PSG assim o dita – que não será campeão francês, mas está em segundo lugar com 5 pontos de avanço do terceiro classificado, o Bordéus de Paulo Sousa. A mesma distância de atraso para o líder, embora com um jogo a mais. Grande AVB.

É uma evidência que Villas-Boas foi daqueles treinadores que depressa ascenderam ao estrelato – neste caso à boleia do seu currículo se ter iniciado com José Mourinho – e depressa desceram ao inferno. A genialidade da sua passagem pelo FC Porto garantiu-lhe um bilhete para Londres, onde numa curta estadia no Chelsea, a coisa não correu bem.

Seguiram-se tempos melhores, no Tottenham, mas mesmo aí, quando as coisas não estavam assim tão mal, parecem ter-lhe feito a cama. E a memória no mundo do futebol é uma coisa tão deturpada como perigosa, assemelha-se mais à forma de cadastro, não é como um concorrente de um reality show que passado uns meses de perseguição é já um mero anónimo. Nada disso. Deixa cicatrizes profundas.

Mais tarde seguiria para o sponsored by Gazprom, Zenit, que também não acabou bem. Foi enriquecer – ainda mais – para a China e no início voltou para o futebol europeu, onde todos devem ter começado por franzir a sobrancelha: “Marselha? Está louco”.

A saída de elementos preponderantes como Luiz Gustavo e Lucas Ocampos não deixava adivinhar grandes motivos para felicidade. Contratou o avançado Benedetto ao Boca Juniors e o médio criativo Valentin Rogier ao Nantes. Ainda assim, olhar para a equipa do Marselha tem naturalmente um olhar inevitável da dúvida. É uma equipa teoricamente inferior a várias outras do campeonato francês.

No entanto, aí está ele, confiante e arrojado, com uma equipa de futebol seguro e intenso, que faz o que tem que fazer para ganhar, aquele aluno de quem se diz que não sendo brilhante sabe o que é preciso para não baixar a média.

Com um punhado de centrais jovens e de grande qualidade como o croata Duje Ćaleta-Car (23), o francês Boubacar Kamara (20) e a eterna promessa Lucas Perrin (21), que apesar de não ser titular começa a ganhar confiança, mais laterais que dão garantias como Jordan Amavi e Bouna Sarr ou o japonês Sakai, mais Mandanda na baliza, as redes parecem estar bem fortificadas.

E o segredo deste Marselha é seguramente um meio-campo que combina músculo, assertividade e capacidade de passe. Strootman, Sanson e Rongier são uma tripla que muitos gostariam de ter, aos quais ainda se juntam, se for preciso, Maxime López ou Grégory Sertic.

Na frente, há que confessar que os 15 milhões pagos por Benedetto, avançado argentino já com 29 anos não parecia grande contratação. Mas o homem já leva seis golos na liga e tem sido importante na manobra ofensiva da equipa. E depois, claro, o já de bengala – ou será mais correcto dizer ainda de bengala? – Dimitri Payet.

Ficam ainda a faltar o extremo sérvio Nemanja Radonjic, o pequeno e veloz Valère Germain e ainda um dos melhores jogadores do plantel, que tem estado arredado por lesão: Florian Thauvin. Ou seja, ainda há margem para melhorar. Domingo recebem o Bordéus, num jogo que promete ser quentinho e acabar com vinho tinto do melhor. Oxalá desta vez não te façam a folha, André.