Hoje em dia discute-se muito se um jogador já está na curva descendente a partir dos 30 anos. Ora Donato Gama da Silva, ou Donato como era conhecido nos anos 90, andou a contrariar essa ideia pela simples razão de que chegou aos 40 anos a jogar ao mais alto nível. E só não jogou mais porque o mandaram embora, pelo menos, essa é a sua versão.

Deu o título de campeão ao Deportivo da Corunha há precisamente 20 anos – antes tinha sido dispensado do Atlético de Madrid por ser demasiado velho (tinha 30 anos na altura e jogaria mais dez no Depor).

Se tivesse sido ele a bater aquele penálti decisivo na época 93-94, o feito histórico podia até ter sido antecipado. Ele diz que todo o mundo diz que sim.

Só teve pena de não ir ao Mundial representar a Espanha ou o Brasil (tem as duas nacionalidades) logo depois de na primeira época em Espanha – no Depor em 93 – na qual marcou dez golos.

Vamos começar umas temporadas antes da conquista do título do Deportivo em 2000. Naquela partida contra o Valência na qual o Deportivo se tivesse marcado o penálti decisivo dar-vos-ia o campeonato. O Donato estava no banco porque foi substituído. O Bebeto não aceitou marcar e teve de ser o Đukić, que falhou. Se fosse o Donato, marcava?

Essa temporada foi em 93/94… realmente esse penálti marcou a vida de três jogadores de uma forma muito diferente. E faltavam apenas dois minutos para terminar a partida contra o Valência. O mister Arsénio tirou-me do jogo exactamente quando faltavam onze minutos para acabar. Eu era a primeira opção, mas como nāo estava em campo, o Đukić era a segunda escolha. O Bebeto, neste ano, tinha falhado dois penáltis e nāo tinha confiança para o bater. Eu nāo digo que se estivesse em campo nāo falharia. Mas digo sempre que treinei toda semana a bater penáltis, do lado esquerdo do guarda-redes.

Eu digo isso porque o Valência jogou contra o Valladolid, e o González [guarda-redes à época dos blanquinegros] tinha subistituído o guarda-redes titular por causa de uma expulsão no penálti a favor do Valladolid. O González descaiu para a esquerda mas atirou-se para a direita nesse penálti. Por causa disso, preparei-me toda a semana a chutar para o do lado esquerdo. E se fosse eu a marcar, atirava para esse lado. Agora se marcava ou não só Deus sabe. Quase todo o mundo diz que se eu tivesse batido o penálti o Deportivo teria sido campeão. Mas não é o Donato que fala nisso.

 

Esta semana fez 20 anos do tal título histórico e, para já, irrepetível. Como é que foi possível?

Comemorou-se 20 anos no passado dia 19 de maio. Foi algo quase impensável e histórico para a cidade de La Coruña, para o clube, jogadores e adeptos. O jogo contra o Español, em que eu e o Makay marcámos os golos, vai ficar para sempre nas nossas memórias. E logo depois da tal temporada, porque pensámos que não teríamos outra oportunidade como aquela. Mas a sorte voltou a sorrir-nos e dessa vez não falhámos.

Com a La Liga que temos hoje em dia, de um lado Real Madrid, do outro Barcelona, e Atlético de Madrid sempre à espreita, acha possível repetir o feito?

Tal como está o campeonato espanhol e o futebol é quase impensável, mas nunca podemos assegurar que não se volte a repetir.

E foi dos jogadores mais velhos a passar pela La Liga…

Joguei até aos 40 anos, parei com sede de continuar a jogar. Tive várias ofertas de diversos clubes da segunda divisão, mas não me atraíam. Fiz carreira na primeira divisão, toda a minha vida no futebol foi pensado em subir ao mais alto deste desporto. E também por causa de uma situação familiar, acreditei que era o momento para sair.

No entanto parece que não saiu muito satisfeito do clube espanhol, certo?

Saí de uma forma injusta, depois de dez anos a jogar no clube. Senti que na última temporada não havia interesse da parte deles para renovar mais um ano. Tinha uma cláusula no contrato que se jogasse 50% jogos a renovação era automática. Não era por falta de condições da minha parte, mas sim por falta de interesse do Depor. A notícia de que o clube nõa contava mais com os meus servios chegou uma semana antes do início da pré-temporada. E chegou-me por telefone, fui surpreendido. E isso ajudou para que perdesse o sonho de continuar a jogar.

 

Fran recebe o troféu de cmapeão espanhol em 2000 | foto site oficial do RC Deportivo de La Coruña

 

Como é que recorda o seu último jogo pelo clube onde deixou a maior marca?

Foi contra o Español, o clube contra quem marquei o primeiro golo da vitória quando ganhamos o campeonato. Em 2003 foi praticamente a minha despedida. Nunca percebi porque é que o treinador me tirou ao minuto 44’. Saí do campo sem saber o que se estava a passar. Depois fui para o balneário tomar banho, enquanto os meus colegas descansavam para regressar ao campo. Esperei pelo fim do jogo, para fazer a conferência de imprensa e despedir-me, como se costuma fazer. Termina o jogo e estou ao lado do meu amigo e companheiro Mauro Silva, à espera dos jogadores para lhes desejar boas férias. De repente em o treinador Irureta e diz que quer falar comigo, para dizer que nada estava decidido e que ia falar com o presidente do clube. Disse-me para ir de férias e que voltaríamos a falar. Quando fui para a tal conferência de imprensa, tive que improvisar uma resposta, porque me perguntaram se seria o meu último jogo. Disse que nada estava decidido. Quando já estava fisicamente preparado para voltar chega a chamada. Fiquei sem norte. Assim me despediram.

Essa vontade toda de nunca parar de jogar, vem de onde? Ou seja, a paixão pelo jogo, diga-se.

Vem de berço. Sou o mais novo de três irmãos e o meu pai é a pessoa mais apaixonada pela bola. Tem 84 anos e só não está a jogar por causa da pandemia, porque jogava duas ou três vezes por semana. Desde pequeno que o acompanhava nos seus jogos de futebol de 11×11 ou de 7×7 e até futebol de salão. Não chegou a ser profissional, mas era titular nas melhores equipas do bairro. Ele não gosta de ver, gosta de jogar. E eu também sou um apaixonado como ele, só que as minhas contusões já não me permitem jogar muito. Mas pratico quase todos os desportos. Tenho o dom, boa coordenação e defendo-me bem.

Também reparei que tem dupla nacionalidade, mas que escolheu a seleção espanhola, tendo até estado presente no Euro 96.

Não foi uma escolha minha. Foi mais de quem confiou em mim. Fui chamado pela seleção espanhola, mas nunca pela seleção brasileira. Quando saí do Vasco da Gama para o Atlético em 1988, eu era considerado um os dois melhores atacantes do Brasil. Estive lá cinco anos, um dos mais regulares. Quando vim para aqui fui esquecido pelos treinadores e pela própria imprensa brasileira. O Lazaroni foi meu treinador no Vasco, fomos campeões em 86, 87 e 88, sempre a titular. Quando fiquei com nacionalidade espanhola em 1990 não fiquei impedido de representar o Brasil. Vim para o Deportivo em 93, marquei mais de dez golos nessa temporada, tinha a ilusão de ir ao mundial com o Brasil ou com Espanha, mas não fui a nenhuma. Depois do Mundial, fui convocado para jogar contra a Dinamarca no Euro’96. Mas não foi uma questão de escolher. È muito diferente da história de outros brasileiros como o Diego Costa. Ele podia escolher com que seleção queria jogar. Eu nunca tive essa opção.

 

Pois, acabou por ser dispensado pelo Atlético de Madrid por ser demasiado velho. Ou seja, em Espanha não foi sempre tudo fantástico.

Isso foram desculpas que arranjaram para os adeptos do Atlético. Disseram-me que estava velho e “machucado”. Digo que tudo não passa de mentiras. Para uma pessoa que já está velha e lesionada, aguentar até aos 40 anos a jogar ao mais alto nível, acho difícil.

O Brasil trouxe-nos dos melhores jogadores do mundo. Agora temos visto muitos europeus, principalmente treinadores, a ir para lá. Como é que olha para isso? Recentemente um português, Jorge Jesus, conseguiu ser campeão pelo Flamengo.

O Brasil exporta muitos jogadores para Portugal, Itália e Espanha. Quase todo o mundo tem jogadores de lá. Mas agora jogar lá pode ser uma alternativa para os jogadores europeus. Eu vou fazer 32 anos que vivo em Espanha e há muitos anos que digo que existem jogadores cá que se adaptariam com facilidade ao futebol brasileiro. O Brasil tem um óptimo mercado para jogadores e treinadores da Eruopa. Nunca torci tanto como torci e estou a torcer por Jorge Jesus. É certo que sou vascaíno mas fiquei muito feliz com as conquistas do Jorge Jesus. O país precisa de uma mudança forte de mentaldiade, de se actualizar e sei que muitos brasileiros podem não gostar do que eu falo, mas é a realidade. O trabalho do JJ está a renovar a metodologia brasileira, e a verdade é que os jogadores do Flamengo estão a desfrutar, tal como os adeptos. Tomara que mais treinadores possam aprender a sua metodologia.

Olhando para o presente, o Donato foi apelidado de “avô” em Espanha por jogar até tão tarde. Cristiano Ronaldo parece que involuntariamente também quer se chamado assim, porque continua em boa forma e não parece que vai parar.

Chamavam-me “abuelo” com carinho e achei sempre uma forma normal de ser chamado. Consegui romper a barreira de que um jogador de 32, 33 anos tinha de parar de jogar. Demonstrei a todos que o avô estava em condições normais de enfrentar jogadores com 18, 20 ou 30 anos. E a jogar a La Liga, a Taça do rei ou a Liga dos Campeões. Gostava de jogar contra os melhores. O Cristiano Ronaldo é um craque e um amigo, quando estive de visita ao Real Madrid, era José Mourinho o treinador e levaram-me para uma sala onde estava lá o Ronaldo. Foi muito bonito quando me viu, porque parou de fazer exercício e veio cumprimentar-me. E eu disse: “calma, calma, não vim para lutar”. Ele sorriu e deu-me um abraço. Surpreendeu-me e perguntou como é que eu joguei tantos anos. Respondi que se tivesse um corpo como o dele ainda estaria a jogar. Rimo-nos. E disse-me que com 32 ou 33 já não aguentaria. Disse-lhe para jogar o máximo que conseguisse para não se arrepender, enquanto tentava disfrutar, chegando até onde pudesse. Acho que surgiu aí uma amizade. Todas as vezes que me cruzei com ele, cumrpimentou-me sempre com educação e carinho. Torço muito por ele. Grande jogador e melhor pessoa ainda.