“Adeptos apoderaram-se do centro histórico”, oiço, ao longe, este aviso. Já estava quase a adormecer, com a televisão ligada. Identifico a azáfama, vem do televisor. Será a nova série “Chernobyl?” da HBO? Ou fãs de Game of Thrones que resolveram manifestar todo o ódio que tiveram à última temporada, ao vivo e a cores? Serei eu a sonhar, qual rei D.Afonso Henriques, nos nossos tempos áureos (dirão os adeptos do Gonçalo da Câmara Pereira)…

Não, vá, c-h-e-g.a, nada disso. Trata-se de um jornalista de uma das televisões generalistas que está numa praça em Viseu, no meio de uma névoa vermelha, rodeado de seres humanos, também eles pintados de vermelho, num clima de guerra sufocante. Afinal a culpa é do Benfica, que resolveu ser campeão.

Primeiro, há que dizer que esta vitória faz mais pela descentralização do país do que pelo bolso da “instituição” encarnada. Nunca diria que teríamos adeptos “a apoderar-se” de centros históricos em Viseu. Achei que migravam todos para o Marquês, afinal não.

E com isto não estou a dizer que não há adeptos do Benfica a norte, não. Estou só a escrever uma coisa parva pois tive de ir ao Google ver qual é o centro histórico de Viseu. Peço desculpa, adiante.

Pois bem. Desde então, a emissão nunca mais parou. Sim, porque foram vários os canais que deram exatamente a mesma emissão, repetindo a dinâmica: planos do estádio, planos da rotunda do Marquês, directos com bêbedos, planos do estádio, planos da rotunda do Marquês, directos com mais bêbedos, intervalo comercial, planos do balneário da Luz, planos de crianças com os pais provavelmente bêbe…recuemos ao balneário, por momentos – onde, certamente, um repórter de guerra (é o que são, nestas noites) estava a acompanhar o duche dos novos campeões. Estes jornalistas dão o corpo às balas nestas ocasiões, desde que não deixem cair os sabonetes.

Luís Filipe Vieira aparece, no meio do plantel, a anunciar que vai “duplicar o prémio de jogo”. Dá-se um moche monumental para cima de uma pessoa já de certa idade. Dá a ideia de um ambiente de festa, a mim deu-me a ideia de violência contra pessoas mais velhas. O clima de guerra também se vive dentro das quatro paredes do primeiro classificado desta temporada.

 

 

E se os soldados festejavam a vitória, no campo descobríamos “um homem misterioso na mota”. “Quem seria?”, perguntou a pivô da SIC Notícias aos restantes paineleiros, porque, enfim, é preciso encher chouriços. Quem? Um D. Sebastião dos nossos tempos? Um retornado – leia-se Rui Vitória – das Arábias? Não, Eliseu, que fez mais quilómetros naquele dia com a lambreta do que os que fez em toda a sua carreira desportiva. Mas, lá está, um soldado quando é chamado ao serviço, não desilude.

Mudei de canal, mesma emissão, mas mais momentos de rua. Ao mesmo tempo que vejo imagens de um homem a saltar para cima de um carro da PSP, vislumbro Joana Latino, pessoa habituada a ambientes hostis, especialmente os com muito rock e muito rio à volta.

Qual não é o meu espanto, quando percebo que Latino está a fazer um aviso a quem se dirige para o Marquês, sobre as ruas que estão cortadas. Uma pessoa que costuma partir tudo em festivais, fazendo reportagens como se tivesse numa discussão constante entre casais, agora, no papel de ser humano responsável. Os cenários de guerra, de facto, mudam qualquer um.

Já a acabar a noite, ou a acabar a minha força de manter os olhos abertos, e depois de ver imagens de ferimentos, petardos, conflitos entre polícia e adeptos, pensei que, se adormecesse, não voltaria a acordar. Porquê? Porque o mundo teria acabado, entretanto.

A sorte foi que o treinador do Benfica, Bruno Lage, pediu uma “reconquista das boas maneiras”. Suspirei de alívio, a paz estava a caminho. Uma Paula Bobone de bigode, ora bem! Um capitão da boa hora, que estava longe de mim, mas que me tocou profundamente no coração! Presidente, já!

Durou pouco esse momento, até porque o homem teve de ir dormir, tinha o Canal Panda à espera. O que vale é que estava no fim. “Agora desliguem a televisão e divirtam-se”, grita um adepto para a jornalista.

Foi o que fiz. O mundo não acabou. Lage salvou-nos… até ao plástico, quando fez um apelo para que os adeptos o recolhessem no final dos festejos. Ah, não o fizeram. Pois, com tanto ruído e clima de guerra, não o devem ter ouvido bem.