Sabemos que os prémios são apenas condecorações, medalhas ou troféus para guardar em casa.

Senão, como explicar que Tolstoi (ou Proust, Joyce, Woolf ou Borges) nunca venceu o prémio Nobel? Ou que Maradona (ou Pelé, Van Basten, Pirlo ou Ibrahimovic) nunca ganhou a Bola de Ouro? A lista de injustiças é enorme.

Bem, há sempre uma justificação (por muito tonta que seja). No caso do escritor, no ano de estreia do prémio em 1901 decidiram consagrar o poeta francês Prudhomme – um grupo de artistas suecos até escreveu a Tolstoi a lamentar a decisão da Academia. No de Maradona a bola dourada era restrita a europeus até 1995 – e se ninguém pede desculpa pedimos nós.

Mas estes dois – Tolstoi e Maradona – pelo menos tiveram fama (e muito proveito). O russo confinou-se na herdade Yasnaya Polyana a 200 quilómetros de Moscovo e lá recebia todo o tipo de admiradores como Chekhov, Turgenev, Máximo Gorky. O argentino, bem esse ainda hoje é um circo por onde passa e tem fãs em todo o mundo, certo Kusturica?

Ao contrário de Jorge Alberto González Barillas, ou Mágico González para os que o viram jogar. De resto ninguém sabe quem é (a não ser em Cádiz, mas já explicamos) e se o virmos na rua nem damos por ele (a não ser em Cádiz, mas já explicamos).

«Existe alguém melhor que eu. Chama-se Jorge González, aliás “Mágico”, e joga no Cádiz» Maradona

 

 

E é assim que ele, nascido em São Salvador há 62 anos, quer viver e ser vivido – na sombra.

González, estrela do Cádiz nos anos 80 (201 jogos e 60 golos entre 1982 e 1991), ficou imortalizado para sempre na cultura popular, nunca foi uma estrela mediática, mas aí estão as vozes que passam de pai/mãe para filha/filho, os vídeos, os golos, os passes, as fintas – apenas vestígios audiovisuais que provam o seu talento.

Marco Marsullo apaixonou-se pelo fenómeno escondido da sua magia (nunca o viu jogar) ao ponto de lhe dedicar um livro: “Mágico González, El genio que quería divertirse”.

Nele, e estamos a citar o jornalista e escritor napolitano, chama ao Mágico um “superclase travieso, um bohemio con botas, um mito errante”.

«Siempre he tenido una idea loca en la cabeza: no me apetecia vivir el fútbol como si fuera un trabajo» Mágico González

Diz Marsullo que o relato deste livro é uma mistura de facto reais com produtos da sua imaginação e acontecimentos que lhe foram contando, em setembro de 2014, quando decidiu percorrer as ruas de Cádiz à procura dos passos de González.

Diz o colunista do diário Il Corriere del Mezzogiorno que este livro é uma homenagem à pessoa atrás do futebolista, um olhar à luta entre a fama e a melancolia, diversão e tristeza do camisola 11 (nunca o 10).

 

 

Desde miúdo que González parecia estar predestinado para a alcunha de Mago.

Aos 17 anos, a jogar pelo pequeno Antel numa vitória por 3-1 sobre o Águila, já vestia o número 11 e já se gritava pelo mágico depois dos seus dribles deixarem em êxtase o locutor Rosalio Hernández Colorado – foi ele que escolheu definir aquele prodígio com a alcunha de Mágico, depois de uma jogada incrível a culminar em golo do companheiro Herbert Machón.

Seguiu-se a Europa nos anos 80, o Cádiz apesar das propostas do Atlético de Madrid e do PSG. As praias andaluzes e as noites eternas fizeram-no ficar-se por ali quase uma década. Forjou ali a sua lenda e os seus melhores momentos pertencem ao estádio Ramon de Carranza.

Em 1984 surgiu a hipótese de rumar ao Barcelona para jogar ao lado de Maradona. González chegou a integrar a comitiva blaugrana na pré-temporada nos EUA e fez algumas boas exibições ao lado do argentino no torneio com o Cosmos, a Udinese e o Fluminense – veio desse tempo de convívio o fascínio de Maradona por González. Até hoje.

«Tive a oportunidaed de jogar com ele. Depois de ver os dribles aos espanhóis… Ele era único! Está entre os dez melhores que vi na minha vida»

Mas como sempre o lado boémio do salvadorenho veio ao de cima e fez abortar a transferência para o Barça.

Numa noite no hotel em Nova Iorque o alarme de incêndio disparou e todos os jogadores do correram para a entrada. Todos menos um. González estava no quarto acompanhado e preferiu não sair. Foi a gota de água e o Mágico voltou para o Cádiz.