O título de campeão do Benfica 2018-19 divide-se em dois períodos e 4 estrelas (já lá vamos), numa recta final marcada por uma ultrapassagem ao Porto (à 15.ª jornada havia um fosso de 7 pontos para os líderes dragões) e uma série de 9 vitórias seguidas – entre elas uma no Dragão – que acabou com o caneco na mão dos encarnados (87 pontos contra 85 dos portistas).

 

O período Rui Vitória

Assegurada presença na Liga dos Campeões e liderança na Liga pós vitória sobre o FC Porto no Estádio da Luz, nada faria prever que a queda de Rui Vitória fosse tão acentuada e marcante.

No primeiro período da época, foi um Benfica organizado num 4x3x3, com debilidades evidentes em alguns momentos do jogo, mesmo quando sucedia vencer os seus jogos. Ofensivamente a dinâmica nos corredores laterais, onde formava triângulos entre laterais, interiores e extremos, por onde furava organizações e entrava pelas zonas de finalização adentro, era muito interessante e foi o catalisador de vários dos golos dos encarnados no período de Rui Vitória.

Faltou durante tal período ser uma equipa mais capaz e com maior vontade de chegar ao último terço explorando também o espaço interior, nas costas dos médios adversários. Porque o caminho central foi somente uma passagem para o lateral e pouco utilizado para agredir opositores, o futebol encarnado tornou-se previsível e mais fácil de anular.

A organização defensiva em 4x3x3, embora pensada para proteger com mais um elemento o espaço central, primou por demasiados comportamentos de pressão, que desorganizavam a equipa e deixavam os interiores à frente da linha da bola, obrigando Fejsa e linha média a defenderem consecutivamente os lances em igualdade ou inferioridade numérica.

A queda dos resultados e um estado anímico irreversivelmente perdido, levaram o presidente dos encarnados a optar por outra solução que se viria a tornar fundamental.

 

O período Bruno Lage

A entrada de um novo treinador trouxe desde a primeira hora uma alteração táctica acentuada.

O Benfica passou a defender com dois avançados e duas linha de quatro, embora demasiadas vezes, a conceder alguma liberdade de tarefas defensivas aos seus alas, para que pudesse ser uma equipa também mais capaz de acelerar no seu contra ataque, e sobretudo, passou a procurar rotas novas na sua organização ofensiva.

Com bola o Benfica passou a organizar-se num inusitado 2+2+6, (imagem 4) com centrais (Dias e posteriormente Ferro) e dupla de médios (Samaris e Gabriel, posteriormente Florentino) a darem suporte aos seis elementos que se colocavam entre linhas adversárias. Os laterais Almeida e Grimaldo à largura, e João Félix, Rafa, Seferovic e Pizzi por dentro das estruturas adversárias e em espaços interiores.

Quando as novas rotas ofensivas descobriam os jogadores entrelinhas, os movimentos de ruptura quer de Seferovic quer de Félix ou Rafa sucediam-se, e com eles os golos e vitórias encarnadas, mesmo que nem sempre as goleadas mostrassem as dificuldades que em períodos específicos das partidas o Benfica passava.

 

Os Jogos do Título

Vitória x SL Benfica

A equipa de Bruno Lage parecia irremediavelmente perdida da luta, porque demasiado distante da liderança e porque a dificuldade das suas deslocações era tremenda.

A deslocação a Guimarães poderia marcar o adeus definitivo à pretensão de se sagrar campeão nacional, e na cidade berço o Benfica nem sempre foi capaz de assumir o jogo em organização ofensiva. Passou por imensas dificuldades e durante largos períodos esteve remetido ao seu meio campo defensivo em situação de controlo sem energia para sair para pressionar e inverter a toada do jogo. Foi nesta partida que após lesão de Fesja, Samaris se estreou a titular com Lage e partiu para uma época de nível elevadíssimo.

O golo da vitória dos encarnados apareceu a 10 minutos do fim, contra o rumo dos acontecimentos, mas com uma marca que o próprio treinador assumiu – A equipa que recebia sempre a bola orientado para o lado oposto, marcaria o seu primeiro golo com tal traço. Vitória atraído ao corredor esquerdo dos encarnados e uma variação de Gabriel descobriu Almeida para a assistência de um golo fácil de Seferovic, e assim resistiu ao “adeus” a equipa do Benfica.

 

Sporting x Benfica

A Alvalade o Benfica chegou a cinco pontos da liderança e obrigado a vencer o derby eterno para continuar a sonhar com uma conquista, e a resposta dos comandados de Lage atingiu níveis de brilhantismo que o robusto resultado nem sequer traduziu.

Novamente com a sua identidade bem vincada, explorou de forma muito eficaz a superioridade numérica dos 6 x 4 no último terço (laterais + jogadores mais ofensivos contra Linha Defensiva do Sporting), para sempre que entrava pelo espaço interior ou exterior, com maior presença e aproveitando ainda o desacerto leonino na hora de defender, criar sucessivamente lances de iminente golo.

Foi a primeira grande exibição da era Lage, com oportunidades e golos a surgirem em catadupa. Talvez o primeiro momento em que a equipa sentiu ter condições no seu novo jogar para ser feliz.

 

FC Porto x Benfica

Depois de uma desvantagem que chegou a ser de sete pontos, o Benfica de Lage deslocou-se ao Estádio do Dragão a um curto ponto da liderança. Se a recuperação parecia impensável, faltava colocar a cereja em cima do bolo. Ir resgatar o primeiro lugar ao campo do maior rival, num Estádio onde a história favorece de forma esmagadora os azuis.

O Benfica surgiu no Dragão de forma extremamente personalizada. Sem temores, a assumir a posse, sem mudar os seus posicionamentos, embora tal como Lage explicou, com rotas ofensivas que desviaram a bola dos seus médios quando estes estavam de costas para fugir à intensa pressão dos médios azuis.

Embora tenha partido em desvantagem no marcador, os encarnados estiveram sempre tranquilos e confortáveis e acabaram de forma algo natural, até, por virar o resultado depois de dois lances de origem diferente. Em transição ofensiva, uma recuperação de Gabriel com o FC Porto aberto no campo e aceleração em direcção à zona de finalização onde Félix empatou, e em organização ofensiva, com chamada ao espaço interior que juntou organização do Porto dentro, e entrada pelo espaço exterior onde Grimaldo com tempo e espaço pôde voltar a alimentar o espaço entrelinhas.

Da sua identidade e do plano estratégico, a equipa de Bruno Lage conseguiu no Porto virar por completo uma Liga que parecia perdida.

 

Braga x Benfica

Braga marcou o desafio mais complicado à agora liderança do Benfica.

A equipa de Abel tem virtudes evidentes e lutou pelo primeiro lugar até próximo do último terço da temporada. Na cidade do Minho, o Benfica não poderia perder sob pena de voltar a deixar escapar um título que agora já não era uma miragem.

A entrada em jogo foi demasiado nervosa. Os encarnados perderam bolas de forma sucessiva na construção e ao contrário de outras partidas Florentino e Samaris não conseguiram na Transição Defensiva estancar as saídas rápidas dos bracarenses. A superioridade dos da casa foi uma evidência e a saída para o intervalo em vantagem deixava antever momentos de grande dificuldade e tensão.

Contudo, o período complementar trouxe um Benfica mais capaz em posse, que conseguiu remeter o Braga ao seu último terço, espaço onde chegados, os encarnados conseguiram ser mais eficazes na transição defensiva, e a cada perda sucederam-se recuperações rápidas e novos ataques.

Um Benfica transfigurado para melhor, assumiu domínio da partida, chegou consecutivamente à área arsenalistas e em alguns lances de felicidade nas bolas paradas, virou a partida. Daí até ao final, com linhas mais baixas e a aproveitar as saídas para o contra ataque com Rafa a progredir a alta velocidade, os encarnados tornaram-se ainda mais perigosos e de um jogo de dificuldade tremenda, nasceu mais uma vitória confortável e uma demonstração de força.

 

OS HOMENS DO TÍTULO

João Félix

O jovem português é a figura maior da conquista encarnada. No seu primeiro ano de sénior marcou em todos os principais Estádios do futebol nacional, e em todos se apresentou com uma personalidade e qualidade inolvidável. Entre linhas, nas costas dos médios adversários, a criar fosse com passes de ruptura para os colegas ou na forma como se associava em tabelas sucessivas para receber mais na frente, a preponderância do jovem genial foi tremenda quer a criar quer a finalizar. Um prodígio já com um rendimento de gente grande. Na hora do aperto, nunca se escondeu.

 

Samaris

Regressou depois de um longo “ocaso” e teve mais rendimento do que nunca. Preponderante na transição defensiva encarnada, denotando melhores timings do que nunca para enquadrar as suas acções defensivas, acabou por ter uma influencia também importante com bola. Fosse a servir as zonas de criação, ou até as de finalização com últimos passes que contornaram por cima organizações adversárias e descobriram os movimentos de Seferovic. No período em que foi chamado esteve assertivo e contribuiu decisivamente para o título por ser o porto seguro que a passagem dos diferentes momentos de jogo do Benfica precisava.

 

Rafa Silva

A mota realizou finalmente a temporada que o seu potencial fazia antever. Corrigiu lacunas na hora de atirar às balizas adversárias, mantendo a capacidade incrível que tem de aparecer e desequilibrar no drible e na velocidade. Cada contra ataque conduzido pelo português era alvo de temor. Nem sempre bem definido mas porque é absurda a sua capacidade para acelerar, a quantidade de vezes em que o fez permitiu ter criação e finalização em grande número. Marcou como nunca e foi ele quem mais terror espalhou nos adversários de cada vez que o Benfica se adiantou no marcador.

 

Rúben Dias

A sua competência defensiva é admirável, e foi ao longo de toda a temporada, mesmo com deslizes fundamentais em duas partidas diferentes, o porto seguro da última linha do Benfica. Venceu duelos, posicionou-se e organizou linha em profundidade e largura. Foi pela competência do líder do sector mais recuado dos encarnados que tantas vezes o modelo de Lage pôde contemplar defender com menos elementos procurando explorar momentos pós recuperação com elementos mais profundos. Dificilmente estará em Portugal na temporada vindoura, agora que também já conquistou espaço na selecção nacional.