Johan Cruijff deixou-nos muitas coisas. Pensou o jogo de forma diferente enquanto jogador e como treinador – mudou a forma como o futebol era jogado ao mais alto nível nas duas vertentes.

Sabemos disso tudo.

Vimos aquele penálti contra o Helmond Sport em 1982 e ficámos pasmados com a ideia do passe lateral para Jesper Olsen em vez de rematar directo à baliza – era possível, estava nas regras e ficaram todos atrapalhados, que o diga o guarda-redes Otto Versfeld.

Era essa a ideia, deixar todos a pensar. Nem sequer foi ele que inventou (foi Rik Coppens com Andre Piters durante um Bélgica-Islândia em 1957 e, mais tarde, em 1964 Mike Trebilcock repetiria a graça com John Newman, num Plymouth-Man City, dizendo que tinha sido uma ideia maluca do treinador Malcolm Allison).

Cruijff teve a ousadia de ir pesquisar, pensar e executar. Claro que antes do jogo, contou o holandês depois, avisou o árbitro para não haver confusões…

 

 

A finta que mudou o futebol (e os rins de Olsson)

Antes, muito antes, Cruijff já havia feito das suas. À frente da Holanda e do seu futebol total, a sua máxima glória foi aquela finta durante o jogo da fase de grupos do Mundial 1974 contra a Suécia.

Essa finta foi a imagem definitiva desse Campeonato do Mundo de 74; a imagem definidora da grande seleção holandesa dos anos 70; a imagem-ícone de um dos jogadores mais talentosos, encantadores e mágicos que passaram num campo de futebol.

Estamos a falar daquele minuto 23. Quarta-feira 19 de junho de 1974, 19h53. Jogo do Grupo 3 entre a Holanda e a Suécia no Estádio Westfalenstadion, em Dortmund.

Cruijff trazia consigo as medalhas de 3 Taças dos Campeões seguidas conquistadas com o Ajax (1971, 1972 e 1973) – chegou consagrado ao Mundial e com as atenções todas em si e no futebol que Rinus Mitchell pensou para ele e para a Holanda.

Aquela volta de 180 graus com a bola fez o defesa direito Jan Olsson fazer uma completa de 360 graus.

Aquilo foi atlético, estético, o melhor balé jamais visto sobre a relva. Uma cartada tirada da melhor manga. Cruyff estava a começar a causar a mesma impressão que deixou Didi em 1958, Garrincha em 1962 e Pelé em 1970.

O resto foi história. A Holanda não ganharia esse Mundial (perderia a final para a RFA de Sepp Maier, Beckenbauer e Gerd Müller). Mas aquela finta, aquele futebol total, aquela Holanda e, claro, Criujff ficariam para sempre.

 

 

Olsson tinha 32 anos quando foi enganado pelo momento mágico de Cruyff e, apesar da passagem do tempo, as suas memórias daquele dia permaneceram tão vivas como sempre quando lhe pedem para recordar.

«Olhámos todos uns para os outros deopois do jogo e os meus colegas de equipa começaram a rir-se de mim e eu fiz o mesmo. Ri-me na altura como me rio hoje» contou à PA

“Foi muito engraçado. Ele era um jogador de classe mundial. Eu fiz o meu melhor, mas eu não era um jogador de classe mundial”.

«Não houve nenhum jogador que tenha tido tanto êxito enquanto futebolista e treinador. Está na mesa histórica dos quatro: Di Stéfano, Pelé, Cruyff e Maradona… E como treinador é algo mais do que um vencedor: é uma referência, a personificação de uma escola a que, de todas, a Espanha deve ser a mais agradecida” Jorge Valdano, avançado argentino campeão mundial ao lado de Maradona em 1986