A UEFA adiou o Euro 2020 (para 2021) e deixou Portugal campeão por mais um ano. Em vez dos habituais quatro anos que dura o reinado entre duas edições de um Campeonato da Europa, desta vez serão cinco anos.

Vénia ao Éder.

Mas esta não foi a primeira vez que a UEFA interferiu na edição de um Europeu. Foi a segunda.

A primeira vez que o fez foi em 1992.

A nona edição do Europeu (a prova foi criada em 1960) foi a mais politizada de todas. Realizada há 28 anos, a Alemanha disputou o torneio já como nação unificada, juntando as antigas RFA e RDA, e o fim da União Soviética deu lugar a uma seleção da CEI, formada de propósito para a prova.

A CEI, uma seleção de futebol chamada Comunidade dos Estados Independentes, era composta pelas repúblicas da ex-URSS (país que se tinha desmantelado no final do ano de 1991): só as seleções da Estónia, Letónia e Lituânia não integravam a equipa porque já tinham formado as suas próprias seleções (mas permaneceram na CEI até 1997).

A política não se ficou por aqui.

A guerra na Jugoslávia obrigou a UEFA a intervir. Os jugoslavos já estavam qualificados para o Europeu mas a UEFA suspendeu o país e chamou a Dinamarca a ocupar a vaga através da regra Lucky loser.

A Dinamarca acabou por se sagrar campeã europeia – e nem estava qualificada para a prova.

Segunda classificada do Grupo 4 atrás dos jugoslavos (só eram qualificados os primeiros de cada grupo), os dinamarqueses seriam repescados.

Eliminados na fase de qualificação por apenas 1 ponto (devido ao empate 1-1 na Irlanda do Norte), nem a vitória na Jugoslávia garantiram o apuramento já que tinham perdido em casa com os jugoslavos.

Mas as declarações de independência da Croácia e da Bósnia fizeram implodir o bloco jugoslavo, que tinha o poder concentrado na Sérvia. A partir dos movimentos separatistas, os sérvios entraram em conflito com os vizinhos – a guerra com os bósnios durou entre 1992 e 1995.

A ONU começou por impor sanções comerciais à Jugoslávia, nessa altura reduzida basicamente à Sérvia e ao Montenegro. A uma semana do início do Europeu, a UEFA decidiu excluir a Jugoslávia da prova quando esta já se encontrava na Suécia, onde se realizaria o torneio.

E convidar a Dinamarca. De Copenhaga a Malmö são 42 quilómetros. Foi essa a distância que a seleção dinamarquesa teve de percorrer para se apresentar no primeiro jogo frente à Inglaterra.

 

Møller-Nielsen de férias

Diz a lenda que o selecionador Richard Møller-Nielsen tinha feito planos para arranjar a casa e fazer obras na cozinha quando recebeu um telefonema a dizer que tinha de reunir a equipa e partir para a Suécia.

A Dinamarca calhou no mesmo grupo dos anfitriões suecos, França e Inglaterra. E a verdade é que também aqui a Dinamarca de Schmeichel, Lars Olsen, Henrik Larsen e Brian Laudrup (o irmão Michael recusou-se a participar na prova) esteve quase de fora da qualificação para as meias-finais.

No primeiro jogo a Dinamarca empatou 0-0 com a Inglaterra de David Paltt, Gary Lineker e Alan Smith. Depois foi derrotada 1-0 pela Suécia com um golo de Tomas Brolin. Precisava de vencer a França no último jogo, já que o empate apuraria os franceses – e foi o que fez com um golo caído do céu a 12 minutos do fim.

Lars Elstrup marcou o 2-1 e eliminou a França de Deschamps, Cantona e Papin (sob as ordens de Paltini).

Seguia-se a Holanda, atual detentora do título conquistado em 1988 com Koeman, Rijkaard, Gullit, Bergkamp e Van Basten orientados por Rinus Michels.

2-2 nos 90 minutos e após prolongamento: 5-4 nos penáltis, com Schmeichel a defender o penálti de Van Basten. Nos diamarqueses ninguém falhou: Larsen, Povlsen, Elstrup, Vilfort
e Christofte marcaram todos.

Mais heróico só vencer a final à Alemanha de Brehme, Hassler e Klinsmann treinados por Berti Vogts.

Foi o que acoteceu.