Vamos lá dizer isto pela nonagésima vez: 2020 tem mesmo sido um ano surreal.

Aquilo que se passou em Roland Garros entre setembro e outubro é mais um capítulo espantoso deste repetitivo livro.

Iga Świątek. Isso mesmo. Agora até já podemos escrever apenas este nome e acrescentar-lhe um ponto final.

A prodigiosa jogadora polaca — primeira no país a vencer um Grand Slam, a mais jovem vencedora do torneio desde Monica Selles em 1992 e fê-lo sem ceder um mísero set, tal como Justine Henin havia feito em 2007 — apareceu na terra parisiense com um ténis inacreditavelmente bom.

 

 

Com um percurso, até aqui, pouco mediático

(ainda que tenha vencido Wimbledon, em juniores, no ano de 2018; alcançado a final de Lugano em Abril de 2019, onde perdeu para Polona Hercog; e tinha duas quartas rondas em majors: Open da Austrália 2020 e Roland Garros 2019)

a filha do canoísta olímpico Tomas Świątek abriu uma espécie de fenda na terra do ténis, é difícil recordar alguém tão jovem a jogar tão bem, é difícil recordar um jogo tão completo, com pancadas tão consolidadas e perfeitas de qualquer lado do court, é difícil recordar alguém a jogar como se a pressão fosse uma teoria da conspiração.

É fã de Pink Floyd — e ninguém venha dizer que não é importante ter bom gosto musical — e subiu de #53 para #17 no ranking WTA

A súbita escalada da polaca é um bocadinho como aquelas coisas impensáveis, uma manhã em que nos levantámos ao primeiro despertador ou uma raspadinha recheada quando raramente jogamos, só que no caso de Świątek foi um sonho de duas semanas, cujo desfecho de foi tornando mais nítido gradualmente. As dioptrias foram sendo corrigidas.

Quando, nos oitavos-de-final, cilindra Simona Halep (6-1, 6-2) — uma das melhores jogadoras do circuito feminino nos últimos anos — ficou bastante claro que seria muito complicado alguém ganhar a um talento assim, a jogar de forma tão dominadora.

Quando esta conseguiu carimbar o acesso à final, Mats Wilander disse na Eurosport que achava que Świątek podia ser “a tal”, que o jogo dela o recordava de Novak Djokovic e que tinha a sensação de que iria vencer muitos majors. Um já lá mora.

Um armário de troféus que provavelmente vai, em breve, ganhar envergadura.

Não deixa de ser verdade que o circuito feminino já teve tenistas que apareceram de forma estrondosa em Grand Slams e depois meio que se eclipsaram, one hit singers como:

  • Jelena Ostapenko (Roland Garros 2017)
  • Flavia Penetta (US Open 2015)
  • Marion Bartoli (Wimbledon 2013)
  • Samantha Stosur (US Open 2011)

embora muitas destas tenham atingido outros voos na carreira, não foram além de um major conquistado e algumas afastaram-se significativamente do Top-10 mundial de forma bastante célere.

E esperamos que Bianca Andreescu não venha a contribuir para esta lista — isso já parece mais difícil. Mas não será mesmo um exagero afirmar que Świątek parece estar aqui a instaurar um novo reinado.

O matador Robert Lewandowski e a escritora e Prémio Nobel Olga Tokarczuk já vieram congratular a nova grande vedeta da Polónia.

 

 

De facto, é colocarmo-nos todos na fila de espera para a vénia. Coisas boas nos proporcionará.

O WTA, que seguiria agora para oriente, está sem nenhum torneio activo de momento e esperam-se novidades que esclareçam qual será o feliz congratulado.

Do lado masculino joga-se na Sardenha, Colónia, São Petersburgo e até o Lisboa Belém Open, do circuito Challenger, onde os portugueses Nuno Borges, Gonçalo Oliveira e Pedro Sousa (segundo pré-designado) ainda estão em prova, já nos oitavos-de-final.