Bem lá no sul, banhado pelo Mar Jónico, com vista para os paraísos semi-submersos das ilhas gregas, vive a sedutora cidade de Crotone.

É mais uma pérola italiana com águas a 20 e muitos graus, cantinas escondidas entre prédios com pizzas e pastas sem apropriações ocidentais, e um clube de futebol que tem andado cá e lá no que à estadia na Serie A diz respeito.

Assim é a região da Calábria.

 

Neste momento o Crotone é lanterna vermelha na competição, com apenas 15 pontos somados e a oito pontos do Torino (primeiro clube acima da linha de água, com 23 pontos e um jogo a menos), pelo que podemos concordar que a fuga à despromoção será um pequeno milagre, tendo em conta que faltam dez jornadas para o fim da temporada.

Embora, sejam necessárias algumas reservas, esta é uma Serie A onde a Juventus perde em casa com o Benevento e isso já nem cria grande surpresa e o Inter é praticamente campeão a dez jornadas do fim, portanto, para o Crotone, em ano de feitos surreais, a esperança é a última a morrer.

 

 

Este é, efectivamente, um clube na corda bamba. Ainda que em terrenos mais interessantes do que antes ocupava.

Em 2015/2016 subiu pela primeira vez à Serie A e no ano seguinte conseguiu assegurar a permanência.

Em 2017/18 seria relegado à Serie B.

E só voltaria ao encontro dos maiores esta temporada de 2020/2021.

Desde 2016/17 tem nos seus quadros um jogador que passou por Portugal: Simy aka Simeon Nwankwo.

 

Estamos todos recordados?

Simy, o gigante, Simy, o Gulliver, Simy, esse ponta-de-lança nigeriano de 1,98m que chegou aos juniores do Portimonense em 2010/11, directamente do Guo FC, clube nigeriano da cidade de Onitsha, a 450 km de Lagos, onde Simy Nasceu.

Convenhamos que é relativamente normal que um jogador tão alto tenha alguns problemas de coordenação, torna-se difícil não o apelidar de trapalhão, pernas longas, entre outros nomes poucos simpáticos, e assim foi durante os primeiros tempos, quando se estreou na equipa principal do Portimonense, com 20 anos, ao lado de nomes como Wakaso, Sérgio Organista, Ricardo Pessoas, Hugo Carreira, e onde marcou seis golos.

Nada mau para o primeiro ano enquanto sénior.

No ano seguinte, ainda com a equipa algarvia na Segunda Liga, Simy apontou 13 golos e figurou no top10 dos melhores marcadores, junto com nomes como Rabiola, Ricardo Esgaio, Joeano, Miguel Rosa, entre outros.

O que é certo é que essa temporada serviu para confirmar que apesar de alguns problemas morfológicos, entraves de movimentação, Simy era um matador com características únicas. E assim ficou confirmado quando é contratado pelo Gil Vicente na época seguinte (2013/2014), pelo treinador João de Deus, mas sem grande sucesso, não conseguindo fazer nenhum golo em 22 participações, a maioria como suplente.

 

No ano seguinte, faz 9 golos na primeira liga portuguesa, o mesmo número que, por exemplo, Anderson Talisca.

Um ano volvido, já com o Gil de regresso à segunda liga e com Nandinho como treinador, Simy faz 20 golos e é o melhor marcador da competição, à frente de Platiny (Feirense) e Leandro Souza (Famalicão).

 

E aí já todos tínhamos percebido que Simy era um caso sério. Quer fosse por jogada aérea, quer fosse com a bola pelo chão, na cara do golo, o nigeriano era letal.

O Crotone também o percebeu e resgatou o jogador, que nas duas primeiras temporadas no clube, não foi muito feliz, nem teve muitas oportunidades, marcou 4 e 7 golos, respectivamente. Passado um ano, já com a equipa na Serie B, é o quinto melhor marcador, com 14 golos apontados.

Na época passada, é o melhor marcador da Serie B com 20 golos apontados e este ano, na Serie A, já com 28 anos, já muito mais experiente do que era quando o vimos chegar aos seniores do Portimonense, Simy leva 13 golos e é o nono na lista de melhores marcadores.

Uma lista onde tem à sua frente os seguintes nomes:

  • Cristiano Ronaldo
  • Lukaku
  • Luis Muriel
  • Zlatan
  • Lautaro Martínez
  • Immobile
  • Insigne
  • e João Pedro — estes dois últimos em igualdade com o nigeriano

A isto acresce ainda o facto de marcar há quatro jornadas consecutivas.

Um golo na derrota por 5-1 diante da Atalanta, um bis na vitória por 4-2 contra o Torino, um bis na derrota com Lazio e um golo, este sábado, perante o Bolonha, que viria a vencer a partida por 2-3.

O Crotone tem o Mar Jónico e tem Simy.

Se descer de divisão tem de arranjar outros culpados.