É perfeitamente normal que ontem, por volta das 21h30, os seus vizinhos tenham chamado a polícia.

Qualquer agente da autoridade perdoaria a questão, bastando para isso explicar que a berraria se deveu ao festejo do primeiro apuramento da selecção nacional de andebol para uns Jogos Olímpicos.

Perdoem-se também os vizinhos, que não ligam a desporto.

Mas não há como negar a importância, não só pela dimensão inédita, mas pelo momento que todo o andebol português está a passar depois da morte do guarda-redes luso-cubano do FC Porto, Alfredo Quintana.

Mais simbólico era impossível. Em Tóquio, com Quintana no peito.

 

 

E no braço.

Rui Silva, capitão da selecção nacional e colega de Quintana no FC Porto, o homem que marcou o golo decisivo a cinco segundos do final, ontem, contra a França, desequilibrando a balança para 29-28, tem uma tatuagem enorme do ex-guarda-redes e foi para ele, seguramente, a dedicatória.

 

 

Recuemos a cassete.

 

Portugal

  • que tem um sexto lugar no Europeu 2020
  • e um décimo lugar no Mundial 2021

reuniu-se em Montpellier com

  • a França
  • a Croácia
  • e a Tunísia
    (um grupo de onde saíam dois apurados para Tóquio)

Na sexta-feira, com relativa facilidade, a turma de Paulo Jorge Pereira superou a equipa africana por 27-34, ainda que não tenha feito um jogo brilhante, sobretudo no momento defensivo.

 

 

No sábado, diante da Croácia e supostamente o adversário directo dos portugueses — acreditando que a França estaria um nível acima —, Portugal claudicou de forma evidente.

Dominou o jogo quase todo de forma inteligente, chegando mesmo a ter 6 golos de vantagem a uns 20 minutos do final do jogo.

 

Mas a espiral mental negativa que parece afectar esta equipa em momentos de pressão, aqueles onde é preciso gelar e deixar lá os pés, revelou o seu rosto.

Os croatas foram ganhando confiança e chegariam mesmo à vitória, graças a um Luka Cindric que ainda sem joelhos, conseguiu dar a vitória a um país que já viveu melhores momentos no que ao andebol diz respeito.

 

 

O testamento foi lido.

Devem ter-se dito frases como “fica para a próxima”.

Mas Portugal, numa demonstração estoica de força e de fé, nunca deixou de acreditar.

Entrou no jogo a perder 3-9, a jogar de forma profundamente apática, sem ideias, mas lá conseguiu dar a volta e chegar ao intervalo a perder apenas por um, graças a um endiabrado André Gomes e a muita paciência no momento ofensivo.

 

Na segunda parte, parecia possível.

Pareceu quase sempre possível.

Menos quando a dois minutos do fim, os franceses colocam a vantagem na marca dos dois golos e a fé esfumou-se.

Mas talvez isso só tenha acontecido nas casas dos portugueses, porque em Montpellier qual quê, cerraram-se os dentes e aqui vai disto.

Empatámos o jogo a 30 segundos do fim, subimos a defesa, obrigámos a França a cometer jogo passivo e, por consequência, um passe errado, interceptado por Rui Silva, que foi até ao fim e fez o golo.

 

 

O pior foi quando Valentin Porte introduz a bola dentro da baliza de Gustavo Capdeville ao cair do pano.

Mas, pelos vistos, o pano já tinha caído e a bola entrou na baliza depois do apito final.

 

E foi aí que os vizinhos chamaram a polícia.

Gritos, choro e memórias de Quintana, dedos apontados para o céu.

Falamos de uma selecção que com a morte de Quintana e a ausência por lesão de Humberto Gomes apresentou dois jovens guarda-redes, além de Capdeville, do Benfica, Manuel Gaspar, do Sporting, também se apresentou a bom nível neste fim-de-semana.

A festa depois da tempestade com a França | foto KevinDomas IMAGO

 

Falamos de uma selecção que não contou com Gilberto Duarte por lesão, membro essencial na manobra defensiva.

E falamos de um grupo que viveu — e por certo ainda vive — momentos complicadíssimos a nível emocional, pela perda de um ídolo e amigo, de forma súbita e injusta.

 

Dito tudo isto, falamos de uma selecção que parece capaz de tudo.

Connosco em Tóquio:

  • França
  • Alemanha
  • Suécia
  • Brasil
  • Japão
  • Espanha
  • Dinamarca
  • Noruega
  • Bahrain
  • Egipto
  • Argentina

Rumo às medalhas.