Em entrevista, o médio ex-Braga, não hesita quando lhe perguntamos que jogadores destacaria da liga polaca, atira rapidamente: “O número 25 do Lech Poznan”. E, de facto, não é mentira nenhuma: Pedro Tiba ele mesmo é um dos jogadores mais talentosos a jogar na Polónia por estes dias.

Hoje, o Lech Poznan já joga para a taça. E sábado recebe o Legia, líder que está a nove pontos de distância.

Como é que um rapaz de Arcos de Valdevez acaba futebolista e não um mestre a fazer papas de serrabulho?

Opá, é assim, sou de uma família em que toda a gente jogou futebol, não a um nível tão alto, mas os meus pais, os meus tios, os meus primos. Eu cresci na Valeta, no Centro Histórico de Arcos de Valdevez, onde jogava futebol na rua de manhã à noite. O bichinho vem daí, não me lembro de outra brincadeira se não jogar futebol.

Em jovem jogou no Ponte da Barca, que é um município perto dos Arcos que tem um belo vinho verde e uns belos enchidos.

Já vi que gostas de comer e beber.

Quarta-feira 27 maio 19h10
Taça da Polónia
Stal Mielec vs Lech Poznan
3,55 – 2,95 – 1,58

Admito que me costumo alimentar bem. No seu caso, é bom prato ou o desporto de alto rendimento é algo impeditivo nesse sentido?

Logicamente que, durante a competição, temos que ter muitos cuidados e somos sempre acompanhados. Agora como tudo na vida, há tempo para tudo. Sempre que tenho tempo gosto de ir jantar com os amigos e com a família, sobretudo nas férias. E claro que gosto de comer bem e de um bom vinho. Gosto de qualquer prato ali da minha zona.

Em 2007/08, o Pedro esteve num clube chamado Kastoria, na Grécia. Como correu?

Era da segunda divisão, na altura. Sou um bocado diferente da maioria dos jogadores, comecei por baixo e fui, aos poucos, subindo a escada. Fui campeão de juniores da distrital no Valvedez e passei para os seniores, que estavam na Segunda Divisão B. Era o António Fidalgo o treinador, e depois veio o Casquilha. Já havia um empresário muito famoso, o Manuel Barbosa, um velhote que até já morreu. E ele estava a gerir o clube. Eu comecei a dar nas vistas, tinha 18 anos, apareceu essa possibilidade no último dia no mercado, e o contrato era muito melhor do que aquele que tinha. Então fui. Só que aquilo não foi nada do estava à espera.

Então?

Lembro-me de assinar, em Portugal, os três contratos, em português, inglês e em grego, tudo certinho. E quando cheguei à Grécia, o contrato era quase metade. E o presidente disse: “Ou assinas ou voltas para Portugal”. Fui praticamente obrigado a assinar. Só fiz dois jogos, tive uma lesão e eles meteram-me a treinar à parte. Tive que decidir vir-me embora, nem me pagaram, nem nada, foi uma situação bastante difícil.

Sábado 30 maio 19h00

Polónia – Ekstraklasa
Lech Poznan vs Legia Varsóvia
2,50 – 2,55 – 2,05

Depois voltou às origens. É, de facto, um jogador que tendo começado por baixo fui subindo de patamar. Podemos dizer que um dos seus pontos mais altos foi o Braga. O que é que, às tantas, deixou de correr tão bem?

Há dois bragas distintos. Há o primeiro, que faço uma época incrível com o Sérgio Conceição, faço os jogos quase todos, fui chamado à selecção [2014/15]. No ano seguinte, queria muito sair porque não me sentia feliz, passaram-se algumas coisas que me fizeram sentir assim, preferia não falar sobre isso. Então, houve a possibilidade de ir para o Valladolid, também no último dia no mercado. Quando voltei, também não queria ficar em Braga, mas como é lógico, é um clube que me diz muito e fiquei, fiquei sabendo que não iria ter as mesmas oportunidades e que as pessoas não acreditavam em mim como acreditavam antes, apesar de eu pensar que tinha tudo para jogar e para um jogador importante.

Quem era o treinador?

Era o José Peseiro. Foi ele que fez muita força para que eu ficasse e eu fiquei.

Em 2015/16, no Valladolid, esteve com o Bruno Varela e o André Leão. Mas foi uma época que, apesar do estatuto do clube, que hoje em dia está na La Liga.

Tínhamos jogadores muito bons, tínhamos o Kepa na baliza, o Varela não jogava. O orçamento era bastante alto, fui para lá também porque me ofereceram um belo contrato. Mas foi uma época atípica, tivemos quatro treinadores, apesar de, a nível pessoal, ainda ter ganho o prémio de jogador do mês. Mas, globalmente, não foi uma época positiva.

O número 25 em ação | foto PRZEMYSLAW SZYSZKA/CYFRASPORT IMAGO

 

Claro, entendo.

Depois saio do Braga porque sempre tive a forçar a saída. Apareceu uma oportunidade de ir para o Chaves e as pessoas deixaram-me sair. Perceberam que não fazia sentido estar lá quando não queria lá estar.

Chega a Poznan em 2018, como é que tem sido a experiência?

Tem sido espectacular. Quando fiz, talvez a melhor época da minha carreira com o Luís Castro, em Chaves, faço 11 golos, uma data de assistências, tive várias propostas e quando comecei a conhecer a liga polaca interessei-me. Os estádios são fabulosos, os clubes têm condições bastante boas, ao nível dos três ou quatro grandes em Portugal. Poznan é uma cidade muito grande, o país tem 40 milhões de habitantes, para quem não conhece, e é normal que assim seja, é uma liga muito competitiva e onde estou muito bem. Já estamos até a negociar a renovação de um novo contrato porque estou muito bem aqui, sou muito feliz e considerado dos melhores jogadores do campeonato.

Ainda assim, na época anterior a coisa não correu muito bem. O Lech Poznan foi oitavo.

O ano passado houve uma transformação grande no clube, saíram quinze jogadores e começaram a apostar na formação, houve uns problemas com os adeptos e com esses ex-jogadores, não sei explicar bem. Mas a nível colectivo, de facto, foi uma época muito má, ainda que a nível pessoal tenha sido muito positiva.

Agora estão muito melhor, em terceiro, mas já a nove pontos do Legia. O título ainda é possível? O que tem faltado para a equipa chegar ao patamar de 2014/15, quando foi campeã?

São as duas melhores equipas da Polónia, sem qualquer dúvida. Mas aqui o campeonato é um bocadinho diferente, tu podes estar com dez pontos de avanço, mas depois tens os playoffs, ou a fase final, se preferires. Os oito primeiros jogam todos entre eles a uma volta. No sábado jogamos já com o Legia, em casa.

 

 

Este sábado?

Sim, vai dar no Canal 11. Em caso de vitória ficamos a seis pontos e ainda vamos jogar com eles na fase final. E aqui os resultados, às vezes, são meio malucos, o último ganha na casa do primeiro facilmente.

Como é que se explica isso?

Há uma competitividade muito grande. Enquanto que em Portugal existem gajos 300 mil euros e outros a ganhar mil euros, aqui não é tanto assim, é claro que há clubes que pagam mais e outros que pagam menos, mas as condições de trabalho, de treino, são mais ou menos equivalentes, o que faz com que as equipas sejam mais competitivas e equilibradas. Penso que em Portugal não querem isso, as equipas grandes não estão interessadas em nada disso.

Têm jogo hoje para a Taça da Polónia. É um objectivo, importante, deduzo.

É, talvez, o maior objectivo. Jogar fora com uma equipa da segunda divisão nem sempre é fácil, mas temos obrigação de ganhar. E depois, ganhando a taça dá logo acesso à Liga Europa, ou seja, um caminho mais fácil para chegar às competições europeias, que é o grande objectivo do Lech este ano. A verdade é que temos uma equipa com uns nove miúdos oriundos da formação. O primeiro tem o acesso ao apuramento para a Liga dos Campeões e tem dois lugares para o acesso à Liga Europa, caso um dos dois ganhe a taça há mais um lugar.

Para quem não segue muito o futebol polaco, que jogadores destacarias no campeonato?

Para já, o número 25 do Lech Poznan.

Não estou a ver quem é.

Estou a brincar. Temos o nosso ponta-de-lança, um avançado de selecção, com muitos outros jogadores na nossa equipa. Chama-se Christian Gytkjær, dinamarquês. Da minha equipa, temos o extremo, o Kamil Jozwiak, ainda é um miúdo, tem 22 anos, mas já é internacional polaco. O número dez, Dani Ramírez, chegou há pouco tempo e tem estado muito bem. Das outras equipas, há um miúdo que se fala muito, até já se falou para o Sporting, que é o Michal Karbownik, muito, muito bom jogador, um defesa-esquerdo de 19 anos, é um miúdo que tem muita qualidade. O André Martins, claro, também é um bom jogador. O Luquinhas, um brasileiro que estava em Portugal [Benfica B, Vilafranquense, Aves] e que está a fazer uma bela época no Legia. Entre outros.

Obrigado pelo seu tempo.

Obrigado eu.