Marcus Edwards é um miúdo difícil de entender. Quem o escreve não somos nós, portugueses, mas sim os ingleses, neste caso, a imprensa inglesa.

Para além do talento, da confiança e imaginação que transpira, o inglês tem de defrontar mais um jogador, fora e dentro de campo: ele próprio.

Na verdade, é mesmo Marcus que admitiu ser um “adolescente complicado” nos tempos em que andou pela academia do Tottenham – que depois acabou com um empréstimo, sem grande efeito – ao Norwich City em 2017/2018. A sorte foi ter-se transferido para a Holanda, rumo ao Excelsior, onde se começou a endireitar, vagueando pela Eredivisie.

“Acho que as pessoas não me entendem. Não sei porquê, talvez pela minha forma de falar”; confessou ao The Independent.

Estranho para quem chegou a ser o segundo jogador que sofreu mais faltas da liga holandesa, e que recorda, com tanta felicidade, alguns dos momentos que viveu nos países baixos.

Sexta-feira, 19 Junho 19h00
Portugal – Primeira Liga
Vitória Guimarães vs Moreirense
1,42 – 4,15 – 6,20

 

“Fico orgulhoso do futebol livre que joguei. Disseram-me que era bom jogador”, comentou o médio inglês, naquela que foi a primeira experiência fora de casa, com apenas 20 anos. Valeu-lhe a “transferência” do pai para Roterdão, fazendo com que, no regresso das férias de natal, Marcus começasse a fazer-se valer.

É que, verdade seja dita, antes de ter estado presente em 28 partidas pelo Excelsior (as mesmas que fez até agora pela equipa orientada por Ivo Vieira), Edwards quase nunca calçou pela equipa principal dos Spurs: 15 minutos na Taça da Liga em setembro de 2016 e seis minutos pelo Norwich City no Championship.

Antes disso, só mesmo nas camadas mais jovens – e aí deram-se os primeiros confrontos com o próprio clube, desde ter desavessas com a equipa técnica, à altura em que assinou contrato profissional com o Tottenham em 2016.

Valheram-lhe as palavras carinhosas do ex-treinador dos spurs, Mauricio Pochettino, quando o comparou a Lionel Messi. Mesmo assim, foi preciso mudar de ares para se tornar num atleta de alta competição.

Uma lesão, as dificuldades com a “autoridade”, sentimentos de frustração, e uma boa experiência na Holanda, levaram-no até Portugal onde, mais recentemente, fez um dos golos do empate do Vitória diante do Sporting (2-2).

 

 

Uma troca de agentes – passou para a Base, que representa jogadores como Kyle Walker ou Danny Rose – fê-lo chegar até ao nosso burgo, ainda que, inicialmente, estivesse indicado para ingressar na Udinese da Série A.

Causa estranhesa ver uma promessa inglesa, nascida em Camden, mas com dupla nacionalidade (também é do Chipre) que se juntou aos Spurs com apenas seis anos, que chegou a entrar na lista do Golden Boy, e que agora anda no norte do país, a driblar adversários.

Outra das justificações é que, para além dos problemas pessoais e de adaptação, Marcus era egoísta no campo, nos seus tempos de formação.

Precisava, no fundo, de disciplina. Disso, e de dar mais entrevistas, já que a que deu ao The Independent foi a primeira da sua carreira profissional – e que só aconteceu no ano passado. Até ver, ainda nenhum jornal português se arriscou a decifrar o mito inglês.

Pois é, mas para além da estranheza de ver um talento destes em Portugal, com um pé esquerdo de meter inveja, será necessário afirmar outra coisa: Carlos Freitas (director desportivo do Guimarães) sabe o que faz.

Foi buscar um campeão da europa sub-19 avaliado em 3.20 milhões de euros pelo Transfermarkt. Vamos ver se dá saltos maiores, com menos frustração, mais disciplina, e cabeça no lugar certo.