Uma coisa é o desce-desce-desce típico de uma pista de dança, que por norma aparece já depois do jantar, provocado por um hit de balanço latino ou africano.

Outra bem diferente é o desce-tu-que-eu-não-quero a que todos os anos assistimos nas linhas de água das várias divisões de futebol.

A despromoção é infalível: dói a todos.

Ontem, no que à Premier League diz respeito, foi um dia importante para tais contas. O Watford, depois de um golpe genial de midas que gerou o despedimento de Nigel Pearson a apenas duas jornadas do fim da competição, perdeu por 0-4 contra o Manchester City, tendo sido autenticamente dizimado, com zero ocasiões de golo e, na melhor das hipóteses, um café em chávena fria no meio-campo dos citizens.

Já o Aston Villa venceu o Arsenal por 1-0 (golo de Trezeguet), três pontos essenciais e que voltam a relançar a luta pela manutenção.

 

Podemos neste momento alegar que há três equipas para dois lugares. Podíamos considerar quatro, isto porque o West Ham ainda pode, matematicamente, descer de divisão, mas para tal acontecer precisaria de perder diante do Villa e, além disso, ver cair uma vantagem de 13 golos na diferença de golos (os hammers têm -13, o Villa tem -26, o Watford e o Bournemouth têm -27).

Mais: têm um jogo a menos em virtude de apenas hoje se deslocarem a Old Trafford, para defrontar um United em luta pela Champions — no futebol as surpresas existem. Portanto, retiremos o West Ham das contas — ainda que o facto de jogaram diante do Aston Villa seja profundamente importante.

A última jornada da Premier League joga-se no domingo, dia 26, com o Aston Villa a deslocar-se ao Estádio Olímpico, para defrontar o West Ham.

O Watford também joga em Londres, mas com o Arsenal. E o Bournemouth vai a Liverpool defrontar o Everton. O que isto significa é que — perante o goal average como primeiro facto de desempate — o Bournemouth precisa de ir vencer a Goodison Park e esperar que o Villa e o Watford percam. Nenhum outro cenário é possível no caso dos Cherries.

 

Os Villans, por seu lado, precisam que o Bournemouth não vença; e tendo menos um golo que o Watford na diferença de golos tem de esperar, em caso de ambos vencerem, que o Watford não vença por mais dois golos que o Villa; se ambos empatarem ou forem derrotados fica o Villa, a não ser que, em caso de derrota, esta seja superior, em dois golos, à derrota do Watford diante do Arsenal.

O Watford, como já se percebeu, precisa de vencer ou empatar se o Villa perder, e precisa de se agarrar à possibilidade de superar os Villans no goal average.

Deixamos, por agora, as estatísticas. O Villa parece ser o clube em melhor posição, até porque o West Ham já pouco tem a jogar a não ser a sua honra — a hecatombe dos 14 golos não vai acontecer, o mundo está estranho, mas não assim tanto. E a honra, como todos sabemos, é uma característica da Idade Média.

O Watford — até pelo recente despedimento de Pearson, homem que os tinha tirado da sarjeta como poucos trabalhadores do sistema de esgotos seriam capazes — parece condenado. Será difícil acreditar que um balneário se reveja nesta opção dos líderes do clube. Além disso: o Arsenal pode ter perdido com o Villa, mas está a atravessar um bom momento e deverá ser dificilíssimo de bater.

O Bournemouth, diga-se em bom da verdade, que é com alguma tristeza que deve ser relegado para o Championship. O épico trabalho de Eddie Howe vai assim ver o seu pior capítulo, desde que trouxe os Cherries para a piscina dos adultos.

Mas o desinvestimento, as épocas menos positivas de Fraser, Callum Wilson, Joshua King, fazem desta eventual descida um resultado natural e expectável. Ainda que uma vitória diante de um frágil e instável Everton — algo que não parece impossível — requereria a derrota de Villa e de Watford.

Bom, tendo em conta a loucura e o fraquinho da Premier League por reviravoltas, o melhor é sermos prudentes. No final fazemos as contas. É o desce-desce-desce.