É inevitável. Há cidades que nos sugam as ideias e nos deixam enamorados.

Ou é a arquitectura. Ou o rio. Ou a teimosia infernal dos ciclistas. Ou é uma certa e indefinível energia. Mas também pode ser outra coisa: o seu torneio de ténis. Paris é tudo isto.

A procissão do ATP Masters 1000 de Paris ainda vai no adro, mas já há dados por salientar e ausências por lamentar.

Novak Djokovic — talvez envergonhado por ter sofrido a pior derrota da carreira diante de Lorenzo Sonego, em Viena, onde só ganhou três jogos e fez sete winners; numa clara demonstração de falta de profissionalismo — já conseguiu o que queria: ser número um mundial no final da temporada.

Assim que o conseguiu, fechou a loja e já não veio ver o amour de Paris.

 

Roger Federer está em repouso.

Dominic Thiem, com bolhas nos pés, também saltou o torneio francês.

E subitamente eis que se abre uma porta para uma sala nunca antes ocupada por Rafael Nadal.

É verdade, a lenda espanhola nunca venceu o Masters parisiense, embora já tenha sido profundamente feliz na capital francesa, mas noutro piso, noutro complexo desportivo. Isto não é bem jogar em casa, como seria se estivéssemos em Roland Garros.

 

Depois de ter ficado isento na primeira ronda, Nadal defrontou o compatriota Feliciano López, sempre um complexo adversário em pisos rápidos. E López chegou embalado.

Na primeira ronda venceu o sérvio Krajinovic em dois sets e tornou-se o segundo tenista mais velho a conquistar um encontro no Masters 1000 de Paris, aos 39 anos — apenas atrás de Jimmy Connors.

Mais: é um dos quatro tenistas — além de Ivo Karlovic, Jimmy Connors e Tommy Haas — a vencer um encontro num Masters 1000 após celebrar 39 anos de idade. Mas, como sempre, não chegou para Nadal.

E o espanhol atingiu a vitória 1000 em torneio do ATP.

Masters 1000, vitória 1000. Rafa a festejar a vitória mil | foto Aurelien Morissard IMAGO

 

Só 4 tenistas atingiram esta cifra:

  • 1274 Jimmy Connors
  • 1242 Roger Federer
  • 1068 Ivan Lendl
  • 1000 Rafa Nadal

 

Está a ser um torneio relativamente tranquilo, isto é, sem grandes tropeções inesperados, até chegarmos aos dois últimos jogos do dia — isto se assumirmos que a vitória de Gombos a Goffin, na terça-feira, não é propriamente um escândalo tendo em conta os resultados recentes de cada um.

O mesmo não podemos dizer da vitória, no mesmo dia, de Ugo Humbert sobre Stefanos Tsitsipas, num embate que chegou quase às quatro horas de duração. Mas não deixa de ser mais uma derrota precoce do grego que continua a alimentar este sentimento de desilusão, de irregularidade demasiado evidente para quem quer ser primeiro. É triste, mas assim parece.

Depois, foi também a derrota do gigante italiano Matteo Berrettini diante do norte-americano Marcos Giron.

É certo que Giron está a ter um belo 2020, ascendendo a primeira vez ao top100 mundial e tendo resultados interessantes este ano (sobretudo os recentes quartos-de-final em Antuérpia, onde perdeu para De Minaur), mas Berrettini é top10 mundial e uma máquina normalmente letal em pisos rápidos, perder tão cedo num torneio desta dimensão não deixa de ser muito mau sinal.

Pior: elimina as suas hipóteses de marcar presença nas Nitto ATP Finals, a decorrer em Londres a partir de dia 15 de Novembro.

Já ontem, Medvedev beneficiou da desistência de Kevin Anderson para seguir em frente na prova. Sasha Zverev despachou Kecmanovic com um duplo 6-2 e Andrey Rublev foi ainda mais dominador (6-1, 6-2) diante de Radu Albot.

Para hoje, contemos com uma vitória sem grandes dificuldades de Rafa Nadal sobre o australiano do bigode estiloso: Jordan Thompson. Ainda que seja a primeira vez que se defrontam, o tenista espanhol deverá seguir embalado pela milésima vitória, quem sabe até levantar o troféu. Quantos aos homens da casa — Humbert e Mannarino — têm jogos de elevado grau de dificuldade. O primeiro diante de Marin Cilic (que ainda por cima beneficiou da desistência de Corentin Moutet na segunda ronda e, portanto, está mais fresco) e o segundo de Sacha Zverev.

O melhor e talvez mais aguardado encontro tem honras de último do dia, de horário nobre (19h00) e coloca dos dois lados da rede o experientíssimo “Stanimal” Wawrinka e o benjamim russo Andrey Rublev. Um jogo de forças entre a consistência e a técnica, entre o olá e o adeus.

O ténis romântico continua em Paris até ao próximo domingo.