O futebol português, ao contrário do clima habitual de escárnio e mal dizer que se vive actualmente, tem um certo carinho por centrais que jogam até não dar mais.

Luisão, ex-Benfica, pendurou as chuteiras aos 37 anos em 2018. Pepe, do FC Porto, ainda joga pelos dragões. Jérémy Mathieu, que chegou aos leões em 2017, por 2 milhões de euros, vindo do Barcelona, tornou-se numa das figuras de proa de um clube sempre a navegar à vista.

Central discreto, rápido, de poucas palavras e de lágrima difícil (só o vimos a chorar na Taça de Portugal, depois do ano horribilis do clube de Alvalade, o único título relevante que venceu no nosso burgo), foi fintando uma lesão crónica, e convencendo a massa crítica portuguesa.

Nas últimas temporadas é difícil compará-lo a outro central no campeonato português. Não só pela qualidade, mas também porque é o único parecido com o actor Paul Bettany no filme “Código Da Vinci”.

E, vale sempre a pena repetir: porque Jérémy é mesmo muito calado. Basta fazer uma pesquisa nas redes sociais dele para perceber como este homem é um verdadeiro budista nos tempos que correm – o último post no seu instagram data de 2016, só para avisar que andavam a circular perfis falsos com o seu nome.

O que lhe importa é jogar à bola: “Sou um menino de dez anos quando jogo”, contou ao MaisFutebol. Um menino com 1,89 metros e 84 quilos, diga-se.

Sexta-feira, 26 junho 19h15
Portugal – Primeira Liga
Belensenses vs Sporting
4,90 – 3,60 – 1,68

 

Podia pensar-se que um atleta com este estatuto, já com o selo de dois clubes importantes em Espanha (Barcelona, onde ganhou praticamente tudo o que havia para ganhar, inclusivamente até a Liga dos Campeões e Valência), vinha para Portugal meio desanimado, mas não.

O que o desanimou mesmo foi não ter sido convocado um ano antes para o Euro 2016, quando era Didier Dechamps o selecionador, fruto de uma lesão no final da temporada. E, pouco tempo depois, colocaria um ponto final na carreira internacional.

“Na minha carreira não tive muita sorte na seleção”, contou ao jornal L’Équipe nessa altura. Na volta o facto de não ter jogado fez com que ficasse com menos azia de vir para cá. Ficam, porém, 5 internacionalizações. Inacreditável ou não?

Sempre discreto, com 30 anos saltou para o Barcelona por 20 milhões de euros, depois de iniciar carreira no Sochaux, passar pelo Toulouse e chegar ao Valência, já com uma passagem de defesa lateral para central (daí a rapidez).

Muitos adeptos catalães – e a própria imprensa – não gostaram. Qual foi a resposta do Jérémy?

“Não quero saber, o que importa é o grupo, o campo e o clube”, disse citado pelo Mundo Desportivo.

Mas também ajudou o facto de ter sido “apanhado” a fumar, coisa que nem fazia com muita regularidade. Não se sabe a marca, mas ficámos a conhecer o que é que Jérémy acha disso tudo, mais uma vez, já estando em Portugal.

 

“Não sou o primeiro nem vou ser o último jogador a fumar”, confessou em entrevista ao Record em 2017. Toma e embrulha.

A melhor parte disto tudo é que Jérémy nunca passou a falar mais ou sequer perdeu a postura. Há relatos de que tendo colocado os filhos no Liceu Francês em Barcelona, o central francês recusava tirar fotografias com os pais das crianças, contou, em artigo, a Equinox (rádio e revista francesa em Barcelona), na altura em que voltou, já com a camisola do Sporting, a pisar o relvado de Camp Nou.

Apesar de notícias em 2019 terem dito que Sporting não se tinha mostrado interessado em manter o francês, Jérémy lá acabou por ficar.

 

Por ele passaram treinadores como Jorge Jesus, Jorge Silas, Tiago Fernandes, Marcel Keiser e, finalmente, Rúben Amorim.

Na primeira época realizou 48 jogos, na segunda 33 e agora caminhava para os 30 (25). Fez, ao todo, 9 golos – mais dois em três anos com a camisola dos catalães.

Deixará saudades e uma família sportinguista, a julgar pelas fotografias partilhadas pelos jogadores, inclusivamente mensagens de carinho de ex-atletas, como Bruno Fernandes.

Para quem gosta de futebol (daquele mais a sério, sem polémicas), vai ser difícil não ficar emocionado com o vídeo de despedida deste Monsieur.

 

 

É que se fica com amigos portugueses, em Espanha a história não terá sido a mesma.

Não deixou amigos, deixou colegas, como contou ao jornal Marca. Talvez por isso é que tenha dito, uma vez, a seguinte frase:

“A palavra amigo é muito forte. Não há muitos no futebol” (em setembro de 2017, citado pela Equinox). Homem de poucas palavras, sempre certeiras e de muito futebol. Au revoir, Mathieu.