Ontem foi dia de deixar queimar o arroz. É quase sempre assim quando volta a Liga dos Campeões, a ressaca de futebol com a qualidade que se viu no Signal Iduna Park é mais do que justificação para queimar qualquer jantar e ter que recorrer ao delivery.

O desperdício e o pobre basmati sem culpa nenhuma desta doença não agradecem, mas nem um nem outro alguma vez se sentou no sofá a ver um jogo enervante de Champions. Essa é que é essa.

2-1 foi o resultado da primeira-mão dos oitavos-de-final que colocou Borussia Dortmund diante de Paris Saint Germain. Foi o regresso de Thomas Tuchel ao clube que o catapultou para a ribalta do futebol mundial e foi bem agridoce.

Hoje 20h00
8 avos de final Liga dos Campeões
Tottenham vs RB Leipzig
2,60 – 3,55 – 2,60

Diga-se que a culpa não pode ser atribuída ao treinador alemão, é que mal se viu que Neymar tinha desmanchado o seu maravilhoso disfarce capilar de carnaval em tons de rosa choque se percebeu que a coisa não ia correr bem. É como aquela típica de superstição de não se cortar o cabelo ou a barba antes de um jogo importante, já se sabe: vai dar asneira. Bem-dito, bem feito.

A primeira parte é quase integralmente do conjunto de Lucien Favre. É verdade que houve um encaixe relativo de dois sistemas com três centrais, mas Gana e Verratti – dupla de médios recuados do PSG que em condições normais são dos melhores guarda-costas que qualquer estrela de Hollywood pode ter por perto – tiveram dificuldade em construir e, pior ainda, viram-se gregos para atenuar os ataques rápidos dos alemães, movidos a Jadon Sancho, sempre muito bem servido por Emre Can e Witsel e ainda acompanhando por Hakimi, com sucessivas subidas pelo corredor direito.

Convém dizer que o marroquino é, de longe, um dos melhores laterais-direitos do futebol europeu neste momento. Uma palavra ainda para Zagadou, um jovem de 20 anos que, ainda que o nome seja pouco escandinavo, parece ter sido sacado da melhor secção de armários do IKEA.

Ainda sobre o primeiro tempo fica o registo de uma bola perigosa de Sancho, aos 27 minutos, para bela defesa de Navas. E ainda de um cabeceamento errado de Haaland, dado que levantou suspeitas sobre a tese que diz que o norueguês é um robô. Um cyborg não falhava aquela bola.

Na segunda parte, as dúvidas voltaram a erguer-se, uma neblina que apareceu depois de Haaland se enrolar em dribles falhados, já dentro de área, numa eventual possibilidade de golo. Mais uma vez: um robô, ali, jamais perdoaria.

Com isto o PSG começa a crescer, a acreditar, e aos 65 minutos, Mbappé, podia ter inaugurado o marcador, numa jogada de envolvimento com Neymar. E depois, aquele clássico que diz que o futebol é como a vida: é sempre quando estamos a ficar melhor que nos tiram o tapete. Um lance meio atabalhoado, onde mais uma vez a defesa do PSG não fica bem na imagem, dá o golo a Haaland, que lá fez o seu festejo-meditação, ou pose de buda, se preferirem.

Depois, claro, quem tem Mbappé arrisca-se a ganhar. Arrancou pela direita, deu para o meio, e Neymar, mesmo sem o rosa choque, encostou para dentro da baliza. Foi de achar estranho. Mas tudo se esqueceu quando, num contra-ataque letal, Haaland disfere um remate – ou talvez seja melhor dizer uma ogiva – que só não furou as redes porque, que afinal é robô, programou o tiro para perder velocidade no final. Vamos lá ver, quem sabe-se lá de onde, o enviou para aqui e o comanda, não quer que isto se descubra.

 

Haaland, melodia do golo

 

Percebe-se, certo? Imagine-se o que seria agora vir a público que um dos jogadores mais surpreendentemente fascinantes que apareceu no futebol moderno é, afinal de contas, um ser criado por computador. O cuidado é tanto que Haaland – até o nome é bem pensado – depois do segundo golo, parece verter umas lágrimas de emoção. Isto tem que ser tramóia do Musk. Há melhor pavimento do que a relva para testar o novo modelo da Tesla? Pois é.

Bom, em Paris, Tuchel não vai poder contar nem com Verratti, nem com Meunier. Esperemos que Neymar repense voltar a colocar o cabelo rosa. Para vencer robôs, o melhor é irmos preparados.