O futebol começa agora a retomar o seu rumo normal e há equipas a regressar aos treinos, depois de uma paragem obrigatória por causa da pandemia. O Shakhtar é líder do campeonato ucraniano e está também bem encaminhado na Liga Europa, depois de uma vitória frente ao Wolfsburg (2-1 nos oitavos de final) – e de ter ultrapassado o Benfica.

Filipe Celikkaya, adjunto de Luís Castro, aceitou conversar com a News.Moosh sobre esta partida para o outro lado do mundo, as saudades de casa, e o facto de ainda não estar a pensar numa carreira como treinador principal. Só ainda não teve tempo de visitar Chernobyl.

Com esta paragem prolongada, reparei que o Shakhtar voltou aos treinos. Qual é o foco de recuperação para a vossa equipa técnica? Para além de todas as questões mentais que possam ter surgido nos jogadores.

É um regresso ao treino mas sem a possibilidade de competir, é uma sensação nunca antes vivida, o mundo parou e agora aos poucos vai retomando a sua atividade. Neste momento, trabalhamos de forma individual e em pequenos grupos, ainda de forma bastante limitada. Embora a proximidade seja nula, as saudades de todos já eram grandes e o facto de estarmos a treinar no mesmo espaço acaba por ser um escape ao que temos vivido ultimamente. O foco para já é treinar e aguardar pelas decisões do governo para o início da competição.

Foi do Guimarães para a Ucrânia. A mudança foi muito brusca, em termos de cultura, de ambiente nos estádios, formas de treino, ou foi uma adaptação rápida? E Paulo Fonseca deixou um legado bem composto. Para além do mais, com o conflito com a Crimeia, vocês não podem jogar em casa.

Tenho tido algumas experiências no estrangeiro e esta foi a mais natural. Quando estive nos Emirados a treinar o Al Ahli senti bastante a mudança, em termos culturais, da temperatura que se faz sentir no Médio Oriente e da religião sempre bem presente. Aqui, confesso-te que não, foi uma adaptação rápida, ao País, à cidade e à equipa. Sim, infelizmente não podemos jogar em Donetsk devido ao conflito que existe, mas gostaria de jogar no estádio e utilizar o centro de treinos de forma regular. Os jogadores que tiveram essa oportunidade dizem que as condições são fantásticas e o estádio está sempre composto. Pode ser que um dia, num futuro muito próximo tenha essa possibilidade.

 

Celikkaya nos tempos do Vitória (é o primeiro do lado direito) | Fotografia de Miguel Pereira IMAGO

 

Tem alguma história assim mais engraçada, desses primeiros tempos na Ucrânia?

Logo no primeiro mês fui parado pela polícia, fiquei logo preocupado, porque primeiro podia ter cometido alguma infração, ou então era só para controlo. Começaram a falar a Russo e eu não percebia. Eles não falavam Inglês e eu não falo Russo, portanto a única palavra que me lembrei foi Shakhtar. A policia percebeu que não ia conseguir transmitir aquilo que queria e deixou-me ir embora. Mais tarde vim a saber que tinha que ligar sempre as luzes médias e nós em Portugal não temos esse hábito. Agora já sei.

E é claro que a nível pessoal também não deve ser fácil, deixar a família cá, ou dá-se a volta?

A minha mulher está comigo. Sempre que é possível vamos a Portugal visitar a família e amigos.

Há depois aqui a vertente Liga dos Campeões. Como é que olha para essa experiência? O que faltou? Foi ali até à última.

Foi uma experiência muito boa. Infelizmente não conseguimos passar para a fase seguinte e temos que dar mérito às equipas que passaram, caso do Manchester City e da Atalanta. O 3º lugar deu-nos acesso à Liga Europa e por lá continuamos.

E com a Liga Europa parada, qual é a vossa verdadeira ambição quando voltar? Ganhar na Alemanha não foi fácil mas conseguiram, derrotar o Benfica… pareciam embalados.

A nossa ambição é ganhar todos os jogos, o Shakhtar Donetsk é um clube enorme, ganhador e entra em todas as competições para as vencer. Portanto, o próximo passo é passar esta eliminatória.

A sua carreira começa no Belenenses certo? Porquê treinador? De onde vem a paixão pelo futebol?

Sim. Começa de uma forma engraçada, porque ainda jogava futebol na extinta 3ª divisão e estudava na faculdade de educação física. Desde jovem que quis ser treinador, não sabia era quando é que ia ser. O desejo intensificou-se assim que entrei na faculdade. O convite surge da necessidade do Belenenses, clube que já tinha representado na formação, ter um observador no escalão de juniores e que coincide com o início da carreira de treinador do Rui Jorge, que não conhecia mas que hoje é um grande amigo.

E, já agora, qual a experiência num clube, em termos até de aprendizagem, que o marcou mais e porquê?

Em todos os clubes por onde passei, aprendi. Não lhe consigo dizer um clube porque a partilha e aprendizagem que tive em todos marcou-me de alguma forma. Penso que aprendemos todos os dias, porque felizmente o futebol dá-nos a oportunidade de vivenciar situações diferentes constantemente. Confesso que ouvir o hino da Champions League foi um sonho tornado realidade e isso sim marcou-me.

Ainda jogou à bola como jogador, inclusivamente nos Estados Unidos, segundo percebi. Como é que foi isso? Começou no Cova…

Costumo dizer que fui praticante de futebol e não jogador de futebol. Ainda passei por alguns clubes, comecei no Cova da Piedade, porque morava perto do estádio e estava com os meus amigos, depois fui para o Belenenses onde passei grande parte da minha formação. Só depois nos Seniores é que passei por vários clubes. Vou parar aos Estados Unidos porque consegui uma bolsa de estudos e acabo por ir estudar para lá e também representar a faculdade no campeonato da NCAA.

Quanto tempo acha que lhe falta para se tornar treinador principal? Ou ainda é cedo para falar nisso?

Sinceramente, não penso nisso. Vivo a minha profissão diariamente e gosto muito do que faço.

Por último: li numa entrevista que Luís Castro quer ir a Chernobyl. Já foram lá?

Sim ele disse que queria ir, e eu também gostava de ir. Ainda não tive oportunidade apesar de estar relativamente perto.