À sétima jornada — assim como quando atiramos, à sétima onda, a pulseira religiosa, por norma da Nossa Senhora do Bonfim — a Premier League parece recuperar a sua ondulação mais típica.

O Liverpool regressou ao seu trono, depois de mais uma atribulada vitória (2-1 na recepção ao West Ham).

É líder isolado e assim continuará a ser ainda que haja equipas com jogos em atraso e que hoje, segunda-feira, ainda se jogue o Fulham vs West Bromwich e o entusiasmante Leeds United vs Leicester.

 

Ainda que de típico isto continue a ter pouco.

O Everton, de Carlo Ancelotti, que tem sido uma das equipas com melhor futebol destes primeiros capítulos da melhor liga de futebol do mundo, capitulou ontem diante de um Newcastle que, como já é habitual, é capaz do melhor e do pior de uma semana para outra.

É o seu segredo: a instabilidade como arma de confundir os adversários.

 

 

É quase de considerar que as derrotas diante do Brighton (0-3; 2ª jornada) e do United (1-4; 5ª jornada) tenham sido propositadas.

Já os azuis de Liverpool, com uma série de ausências muito relevantes (James Rodriguez, Lucas Digne, Seamus Coleman, Richarlison, Mason Holgate) foi uma equipa vulgar, que parece ter ido a jogo só para manter Calvert-Lewin — a protagonizar um arranque de temporada estrondoso — na cabeça dos melhores marcadores do campeonato.

 

Quem também está a maravilhar é a turma de Ralph Hasenhüttl.

O Southampton pode ter perdido as duas primeiras rondas (com Crystal Palace e Tottenham), mas nas cinco rondas seguintes o percurso é quase imaculado, com 4 vitórias e um empate (este com o Chelsea).

Ontem deram mais um choque de realidade ao ex-candidato ao título Aston Villa, que depois de quatro vitórias consecutivas nas quatro primeiras jornadas (com um 7-2 ao Liverpool pelo caminho) sofreu duas derrotas caseiras meio inexplicáveis — apenas para quem não viu os jogos.

 

 

Diante do Leeds foram escorraçados pelo génio de Patrick Bamford.

E ontem, diante dos Saints, apesar dos dois golos nos descontos que reduziram o resultado de 1-4 para 3-4, nada desculpa a miserável exibição defensiva da equipa liderada por Dean Smith.

E dê-se também uma palavra de apreço à dinâmica que o Southampton apresenta, uma equipa sempre coesa na forma como se posiciona em campo e que se revela cada vez mais letal: quer com James Ward-Prowse, quer com Che Adams, quer com Danny Ings, vai rodando.

 

Já o Chelsea parece prosseguir o seu caminho de bom futebol, de procura de uma linguagem que reúna todas as novas chegadas e todas as suas formas de tratar a bola.

Desta vez, foram ao difícil terreno do Burnley vencer por 0-3, com golos de Ziyech (que começa a ganhar espaço no onze), Kurt Zouma e Timo Werner.

 

Quem parece cada vez mais procurar o desencontro, e, portanto, algo não aconselhado, é o Manchester United.

O problema não é necessariamente a derrota diante do Arsenal (equipa que começa a ganhar o ADN de Mikel Arteta), é aquilo que isso significa, é aquilo que se passou em campo.

Ole Gunnar Solskjær insiste num onze altamente conservador, com três médios de retenção — Fred, McTominay e Pogba — e sem qualquer ideia de jogo. Aliás, a ideia parece ser não perder, o que, para um clube da dimensão do United, não é aceitável.

 

Até a concepção de que Donny Van de Beek e Bruno Fernandes são incompatíveis soa a mentalidade de equipa pequena, que luta pela manutenção.

De facto, tendo em conta o 15º lugar (ainda que com menos um jogo), não estão muito longe de conseguirem sobreviver na Premier League.

Diante do Arsenal, o United foi medíocre, fechado, profundamente incapaz. E algo se passa quando ainda há dias tinham espetado uma manita ao Leipzig, que até este fim-de-semana liderava a Bundesliga. Mistérios da vida, não é?

 

Sobra-nos ainda umas linhas para olhar o Tottenham, de José Mourinho.

Os Spurs chegaram à vice-liderança do campeonato — ainda que o jogo em atrasado do City, ou até o jogo de hoje do Leicester lhe possam retirar tal estatuto — com uma vitória sofrida diante do sempre bravo Brighton.

A derrota com o Antuérpia, durante a semana, para a Liga Europa, já tinha sido má demais. E agora, a coisa ia descambando, não fosse, um anjo renascido galês, conhecido pelo nome de Gareth Bale.

Numa altura em que o Tottenham parece viver tão dependente da dupla Son/Kane, foi preciso o filho, já crescido, de regresso a casa, encostar com a cabeça depois do cruzamento de Reguilón.

Dois ex-Real Madrid, que parecem ter festejado essa passagem pouco feliz pela Santiago Bernabéu. Mourinho respirou de alívio. E no final disse ter saudades do seu antigo futebol. Temos todos, José. Temos todos.

Hoje ainda há dois jogos da ronda 7 da Premier League. A saga continua.