A moda do cor-de-rosa não é de agora, bem sabemos, mas não há como negar a sua nova vida, o seu ressurgimento apoteótico.

Tudo culpa de João Almeida, evidentemente.

 

O ciclista das Caldas da Rainha, que lidera esta atribulada edição do Giro d’Itália deste a terceira etapa — na vulcânica chegada ao Etna —, tinha avisado que até ao dia de ontem, com final na dura subida do Piancavallo, manteria a camisola rosa. E que depois logo se veria.

O que se viu foi um homem isolado e em sofrimento, a cerrar os dentes, a ir buscar forças ao fundo de um cantil vazio desde cedo nos 14,3 quilómetros de ascensão final.

No contrarrelógio de sábado tinha ganho 16 segundos ao seu mais directo adversário: o holandês Wilco Kelderman, que anda muito bem neste tipo de dificuldade individual. E neste domingo, perdeu 41 segundos para o ciclista da Sunweb e grande favorito à vitória final da segunda grande volta do ano.

 

 

Ou seja: segurou a rosa por 15 segundos. Almeida, apesar de o seu rosto indicar dificuldades assim que o terreno começou a inclinar no final da etapa, viu os seus restantes adversários começarem a ceder: Nibali, Fugslang, Majka, McNulty, Pozzovivo, Bilbao.

Eram eles a escorregar e ele a continuar na roda de Kelderman — acrescentemos que Rúben Guerreiro não conseguiu seguir na fuga do dia e perdeu a camisola da montanha para Giovanni Visconti.

 

Diga-se que a equipa holandesa fez uma subida demolidora, primeiro com Sam Oomen e depois com Jai Hindley ­— o escudeiro de Kelderman que é o actual terceiro classificado do Giro — a esfrangalhar tudo o que restava do pelotão.

Este jovem de enorme talento (24 anos) foi também capaz, sensivelmente a 6 quilómetros da meta, de fazer descolar o português, ficando apenas com o seu líder e com Tao Geoghegan Hart — britânico de 25 anos da INEOS — que conseguiu despachar os dois elementos da Sunweb nos últimos 300 metros para vencer a etapa e subir a quarto na classificação geral individual.

 

Apesar do visível sofrimento de João Almeida — e de ter ficado claro que a Deceuninck-Quick Step, apesar de uma bela Volta a Itália na defesa da camisola rosa e do décimo posto de Fausto Masnada e do décimo quarto de James Knox, não está com capacidade para segurar o seu líder nos terrenos mais adversos da corrida — nem tudo foi mau.

A manutenção da rosa é sempre factor de motivação, até porque amanhã se vive o segundo dia de descanso e isso significa que à partida para a 16ª etapa o pantera cor-de-rosa continuará líder. É fácil perceber que assim que o ciclista português perder a rosa será muito difícil ir buscá-la, mas depois de tudo o que já fez é melhor termos cautela com este tipo de afirmações.

 

O que parece certo é que apesar de atribulada, a etapa de terça não parece ser problemática ao ponto de Almeida perder a rosa, mas quarta, quinta e sábado a Volta a Itália chega à sua mais fase mais mortífera, com subidas intermináveis e altitudes assustadoras.

Convenhamos que 15 segundos é pouco e que se Almeida perdeu 41 ontem, com aquilo que ainda falta para correr, a rosa está por um fio.

 

Por outro lado, o pódio, ou até mesmo o segundo lugar, parecem cada vez mais reais, uma vez que quase toda a gente perdeu tempo na etapa de ontem. Hindley está a 2,56 e Hart a 2,57 de distância do português, terceiro e quarto classificados.

Ou seja: seria preciso um dia de desfalecimento total de Almeida para que o pódio lhe fugisse. Se à partida para esta competição alguém dissesse que um português o iria conseguir talvez tivéssemos respondido que Deus não existe. Agora já não temos tanta certeza.

Uma última nota para dar conta de que amanhã começa a Volta à Espanha, com a participação dos portugueses Rui Costa, Ivo Oliveira, Nélson Oliveira e Ricardo Vilela.

Roglič vai tentar compensar a desilusão do Tour, Carapaz vai tentar voltar a ganhar uma grande volta depois do Giro de 2019, Vlasov vai tentar não vomitar como fez à segunda etapa do Giro deste ano e Froome talvez opte por afirmar que, afinal de contas, está vivo. É continuar a pedalar no sofá, minha gente.