Tyson tem 53 anos e parece ter vivido 153. Antes dos 16 ficou órfão, foi preso 38 vezes antes dos 13, experimentou cocaína aos 11, foi agredido sexualmente aos 7 e abandonado pelo pai aos 2. A mãe dava-lhe álcool para adormecer em bebé.

Depois disto tudo conheceu o lendário treinador Cus D’Amato que lhe mudou a vida. Foi campeão mundial aos 20 anos – após isso passou 3 anos na cadeia por uma condenação de violação que sempre contestou. Quando saiu da prisão, tinha cerca de 400 milhões de dólares no banco.

Tyson tem 53 anos e parece ter vivido 153. O antigo campeão mundial e uma das figuras mais desconcertante de sempre dos ringues voltou a reencontrar a fama e o sucesso – no mundo dos podcasts e no negócio da marijuana.

Mais calmo e sem a postura inquietante e perturbadora dos tempos áureos, Mike Tyson diz-se, hoje, um homem muito diferente daquele que durante os anos 80 e 90 dominava o mundo do boxe e ganhou o estatuto de uma das figuras mais controversas de sempre na história no desporto.

O jovem dos bairros de Brownsville, em Nova Iorque, que aos 20 anos ganhou o seu primeiro título mundial e ainda hoje é o mais novo campeão mundial de pesos-pesados, foi um dos pugilistas mais intimidadores de todos os tempos.

Os casos foram muitos: a condenação por violação em 1992, a orelha mordida a Holyfield em 1997, a coleção de tigres, drogas e orgias ao longo dos anos

Os tempos loucos do outrora considerado o The Baddest Man on the Planet já lá vão, mas as histórias ficaram e são contadas em primeira mão ao pormenor e com os detalhes mais sórdidos no podcast Hotboxin’ – o programa que o trouxe de volta à fama pela sinceridade e espiritualidade com que fala da sua carreira e percurso de vida.

Um verdadeiro homem dos sete ofícios.

Tyson transformou também o seu gosto pela marijuana num negócio de cultivo e com perspectivas de ser um autêntico resort de luxo para os fãs da canábis, que incluirá um hotel de luxo, uma escola para o ensino do cultivo da planta e até um anfiteatro para acolher festivais de música.

Mais recentemente entrou no Cameo, um serviço onde celebridades enviam mensagens personalizadas para os fãs, e em apenas 6 horas conseguiu amealhar 20 mil dólares. A estrela continua viva.

É talvez o maior ressurgimento de sempre. Para quem acompanhou a vida e a carreira de Mike Tyson ao longo dos anos 80, 90 e início do milénio, é com perplexidade que vê hoje o antigo campeão mundial a ascender ao estatuto de figura de culto.

Quem o via nesses loucos anos certamente que não imaginaria um final feliz.

A infância e juventude foi conturbada e cheia de tragédias.

Os pais eram toxicodependentes – Tyson chegou a referir que a mãe lhe dava álcool e drogas para adormecer – foi abandonado pelo pai aos 2 anos, agredido sexualmente aos 7, teve a primeira experiência com cocaína aos 11; aos 13 já tinha sido preso 38 vezes, ficou órfão aos 16 depois da morte da mãe e a irmã morreu quando ele tinha 24 

Antes de ter sido descoberto aos 13 anos pelo treinador, mentor e futuro guardião legal Cus D’Amato, a primeira experiência de Tyson com a luta surgiu com 10 anos de idade. Constantemente alvo de bullying em grande parte pelas dificuldades na fala, Tyson refugiava-se num dos seus grandes amores – os pombos.

A primeira luta surgiu precisamente porque um miúdo lhe tinha matado um dos seus pombos preferidos.

É com 13 anos, numa das vezes que se encontrava no reformatório, que salta à vista pela sua compleição física em tão tenra idade – aos 13 diz-se que tinha já 86kg – e é descoberto por Bobby Stewart que por sua vez o apresenta a Cus D’Amato.

A influência de Cus D’Amato na vida de Tyson foi preponderante. Em muitas entrevistas chegou a referir que Cus foi o único amor da sua vida. Foi ele quem o transformou numa máquina de destruição e incutiu naquele jovem perturbado a confiança necessária para ser um campeão mundial.

A morte de Cus D’Amato em 1985 abalou profundamente a vida de Tyson, que não chegou a conseguir mostrar o título mundial ao seu mentor ganho apenas 1 ano depois.

Nos ringues era implacável. O gancho esquerdo, o uppercut, o estilo peek-a-boo ensinado por Cus e o poder e rapidez dos seus golpes eram impressionantes. A técnica, aliada a características físicas ímpares e à presença mais intimidadora de sempre nos ringues, fizeram de Tyson um dos melhores boxeadores da história. Até à altura da condenação por violação em 1992, o seu registo era de 41 vitórias (36 por KO) e apenas 1 derrota.

Apesar da derrota mais surpreendente na história do boxe frente a Buster Douglas, apenas começou a perder a aura de imbatibilidade quando foi condenado por violação em 1992, situação que o retirou dos ringues por 4 anos.

Quando saiu da prisão e regressou ao boxe, apesar de vitórias frente a Bruce Seldon e Frank Bruno, que resultaram na conquista dos títulos da WBC e da WBA, continuou a demonstrar o seu descontrolo emocional que viria a atingir o expoente máximo na segunda luta frente a Evander Holyfield, quando é desclassificado por lhe arrancar parte de uma orelha.

 

 

Fora do ringue os casos sucediam-se e as extravagâncias acumulavam-se, sendo a mais conhecida de todas os tigres que tinha na sua mansão em Ohio.

Recentemente num directo no Instagram com o rapper Fat Joe, deu mais detalhes de um dos episódios envolvendo um dos seus tigres, onde pagou cerca de 250 mil dólares a uma vizinha que saltou o portão de sua casa para ver os seus tigres e acabou sem uma mão.

«She jumped in the property where the tiger was at. They tried to [sue me] until they found out she jumped over the fence and she trespassed the tiger. And listen, when I saw what the tiger did to her hand, I had a lot of money back then, so I gave her $250,000 or whatever it was. – Mike Tyson

A fortuna que chegou a ser avaliada pela Forbes em cerca de 400 milhões de dólares acabou por se esgotar e em 2003, Tyson acabou mesmo por entrar em bancarrota.

Depois de um final de carreira já sem paixão pela modalidade e onde apenas combatia para pagar as contas, retirou-se em 2005.

Miraculosamente conseguiu reinventar-se.

Os problemas com as dependências continuaram durante alguns anos, especialmente após a morte da filha. Profissionalmente virou-se para Hollywood, onde apareceu nos primeiros dois filmes da trilogia da Ressaca, criou um espectáculo a solo sobre a sua vida que depois foi lançado na Broadway com a colaboração de Spike Lee e foi até uma personagem de desenhos animados em Mike Tyson Mysteries.

Ao longo dos últimos anos muitas foram as entrevistas onde pormenorizou o seu estado psicológico e a mentalidade feroz dos tempos em que fazia do boxe a sua vida. No seu podcast Hotboxin’ tem vindo a partilhar alguns desses testemunhos incríveis.

Um dos episódios mais marcantes foi com Sugar Ray Leonard, um dos seus ídolos.

 

«I know the art of fight, I know the art of war, that’s all I ever studied. That’s why they feared me when I was in the ring, I was an annihilator. It’s all I was born for. Now those days are gone it’s empty, I’m nothing. I’m working on the art of humbleness… That’s the reason I’m crying cause I’m not that person no more, and I miss him. Because sometimes I feel like a bitch, because I don’t want that person to come out because if he comes out hell will come with him» Mike Tyson.

Visivelmente muito mais calmo e pacífico, no podcast Joe Rogan Experience – do humorista e comentador de mma, Joe Rogan – voltou a falar da distância entre o homem que é o hoje e do medo de voltar a ser o animal daqueles tempos, razão pela qual se tenta manter distante do mundo do boxe.

Numa entrevista intimista ao The Sportsman e sobre se o sentimento de medo que lhe vinha à cabeça nos tempos em que era lutador, Tyson foi peremptório:

«I knew there was a possibility that I could die during training, during a fight. I knew that. But I wasn’t scared, because I thought if anybody was going to die, I would do the killing. That self-confidence was a survival mechanism. But now, from my experience, from what I believe, the more I know about not existing, the more willing I am to die» Mike Tyson