Era 1998, o World Trade Center ainda não tinha sido atacado, o Titanic de James Cameron estreava em Portugal e um pouco por todo o mundo, Tim Maia e Frank Sinatra iriam morrer. O cenário era mais ou menos este.

E, na Coreia do Sul, num campeonato com bastante menor visibilidade que hoje tem, despontava um jovem de 19 anos, avançado, de nome Lee Dong-gook, que, ao serviço da equipa da sua cidade, os Pohang Steelers, havia de fazer 11 golos em 24 jogos, surpreendendo tudo e todos ao ponto de ser considerado o Rookie do Ano.

Hoje, aos 41 anos, ainda joga. E deixa marcas: é o melhor marcador de sempre da K League 1, com 132 golos em 291 jogos.

Ao serviço do Jeonbuk Hyundai Motors, o campeão coreano treinado pelo português José Morais, desde 2009, o eterno avançado conta 105 internacionalizações, onde marcou por 33 vezes. E é, de facto, curioso pensar num jogador destes, um jogador com tanta longevidade que chegou a jogar 13 minutos no Campeonato do Mundo França 1998.

Pois é, essa é que é essa. Depois dessa primeira bela temporada ao serviço dos Steelers, Dong-gook é convocado para a primeira grande competição internacional de selecções com apenas 19 anos. A Coreia do Sul não passaria da fase de grupos, mas isso não impediu o então jovem de ainda defrontar uma incrível equipa holandesa onde constavam jogadores como Jaap Stam, os irmãos De Boer, Davids, Cocu, Overmars, Bergkamp, com Guus Hiddink sentado no banco.

No ano seguinte, é o nove titular do Campeonato do Mundo de Sub-20 jogado na Nigéria, onde calha no grupo da congénere portuguesa. A equipa liderada por Jesualdo Ferreira venceria por 1-3, com bis de Simão Sabrosa e um golo de Ricardo Sousa – mas onde ainda cabiam lendas como Hugo Leal, Marco Caneira, Filipe Anunciação, Paulo Costa, Hugo Carreira, Neca, Sérgio Leite.

 

Nesse ano, voltaria a estar muito bem ao serviço dos Pohang Steelers, e no ano seguinte partiria para um empréstimo em solo alemão. No Werder Bremen não conseguiu ser feliz e voltaria à sua pátria passados seis meses.

Regressa a Pohang e regressa à titularidade e à boa forma. Ainda assim – mais uma curiosidade para alimentar esta história – viria a ser preterido por Guus Hiddink, aquando do Campeonato do Mundo 2002 acolhido pela Coreia do Sul e cuja selecção o mestre holandês liderava.

O que não foi muito bem compreendido pelos adeptos. Imaginem para Lee Dong-gook. Superou essa adversidade e, como qualquer sul-coreano sério, saiu de Pohang para cumprir o serviço militar obrigatório, o que o fez juntar à equipa militar dos Sangju Sangmu. Voltaria aos Steelers em 2005, onde faria mais uma época e meia de muita qualidade.

 

Até que chega a segunda aventura no estrangeiro, desta feita para o Middlesbrough, uma equipa que na época anterior tinha ido à final da Liga Europa, onde perderia perante o Sevilha por 0-4.

Na época seguinte, o recém-retirado Gareth Southgate assume o controlo das tropas e contrata Dong-gook em Janeiro. Dos 23 jogos feitos pelo sul-coreano ao serviço dos Smoggies na Premier League contam-se zero golos. É por isso normal que com o fim do contrato tenha vindo também o regresso à Coreia.

Mas já pode, pelo caminho, dizer que dividiu o balneário no Riverside Stadium com jogadores como Mark Viduka, Fábio Rochemback, Woodgate, Huth, Abel Xavier, Mendieta, Yakubu Ayegbeni, Ray Parlour, entre tantos outros.

Pelo caminho, falhou o Campeonato do Mundo 2006, apesar de ser escolha regular do então seleccionador Dick Advocaat, devido a uma grave lesão nos ligamentos cruzados. Vinga-se e vai ao Mundial 2010, na África do Sul, onde a Coreia do Sul seria eliminada nos oitavos-de-final pelo Uruguai, graças a um bis de Luis Suárez.

Aí, já estava ao serviço do Jeonbuk, onde continua nos dias de hoje. Tem no seu historial duas Liga dos Campeões Asiática, sete K League 1. E, o mais impressionante, é que de 2009 a 2019, durante uma década no clube treinado hoje por José Morais, o mínimo de golos que tem na temporada são 10 (que marcou em duas épocas).

Se excluirmos essas duas temporadas o mínimo de tentos foram 16. O que dá um certo charme a um homem da sua idade. E o facto de que o seu prazo de validade não chegou ainda ao fim é que foi ele quem marcou o golo que deu a vitória ao Jeonbuk na primeira jornada da K League 1. Até aos 45 fica por perto. No mínimo.