Habemus Porto campeão. E no entanto em janeiro o cenário apontava para algo bem diferente.

Os portistas iam 7 pontos atrás do Benfica e duas derrotas com o Braga em oito dias (para o campeonato 1-2 e na final da Taça da Liga 0-1) fizeram Sérgio Conceição apresentar a demissão.

O murro na mesa daria resultado – a equipa nunca mais perderia até à interrupção do campeonato em março.

No final os dragões acabaram mesmo com o caneco na mão: conquistaram o 29º título com um triunfo 2-0 sobre o Sporting a 3 jornadas do fim – foi o pleno de vitórias nos quatro clássicos com Sporting (1-2 e 2-0) e Benfica (0-2 e 3-2).

 

 

Os números também mostram que são também o melhor ataque (67) e a melhor defesa (19) da prova.

Vamos explicar como tudo aconteceu.

 

A reviravolta

Derrota na primeira jornada em Barcelos e a perda para o Krasnodar no apuramento para a Liga dos Campões marcaram um início de época turbulento para um Porto de Conceição que já havia perdido a Liga na temporada passada depois de larga vantagem para o rival Benfica.

É comum afirmar-se que no momento da derrota importa ter algo em que se possa confiar para prosseguir o caminho, esperando dias melhores.

Assim foi ao longo de três anos o Porto de Sérgio Conceição.

Imune a críticas, umas mais injustas que outras: quão comum são hoje as análises nada objectivas e totalmente focadas em gostos pessoais, que não se refletem no que mais importa – o caminho para a vitória, o FC Porto caminhou sempre no mesmo sentido. Uma espécie de identidade Conceição.

 

Um Porto que nunca abdicou do que acredita, mesmo em tempos árduos, foi coroado no final.

Agressividade defensiva, disponibilidade para lutar por cada bola seja esta em processo ofensivo ou defensivo. Um jogo que tantas vezes saltou etapa de criação para procurar Marega – o “patinho feio” que foi determinante na conquista azul.

 

Não somente pelo número de golos, não tão significativos quanto isso, diga-se, mas pela quantidade e qualidade de movimentos realizados que moveu linhas defensivas adversárias, permitiu ao Porto ganhar espaços e chegar rápido à baliza.

Sabia que Marega marcou em 3 dos 4 clássicos, e naquele que ficou em branco, “destruiu” Ferro na bola que Rúben Dias empurraria para a sua própria baliza?

A festa de Marega nos clássicos | foto Ivan Del Val IMAGO

 

Ninguém ousará falar do futebol bonito do Porto de Conceição, mas bem será diferente de mal.

A integração de tantos “panzers” em simultâneo com um dos melhores de sempre em Portugal a bater as bolas paradas deu uma vantagem enorme aos azuis em tal momento. E mesmo que todos nós continuemos a valorizar como o “joga bem ou bonito” todos os outros momentos do jogo, os esquemas táticos são cada vez mais preponderantes na definição de resultados e títulos.

 

E o Porto com Alex Telles, mas também com uma série de jogadores extraordinários no duelo, na impulsão, no ataque à bola área, não venceu sucessivamente com golos saídos de pontapés de canto ou livres de forma aleatória ou injustificada. Se tudo se repetir, Alex Telles continuará a assistir golos azuis nas bolas paradas.

Há a tendência de se minimizar tal poderio, por efectivamente tantas vezes ser um momento mais aleatório. Que se perceba que no Porto de Conceição, tal não corresponde à verdade.

 

Com Danilo primeiro, com preponderância que se perdeu de Uribe ou posteriormente com Sérgio Oliveira no papel de “quarterback” rodando a bola para os espaços vazios, o Porto foi experenciando diferentes alternativas, diferentes estratégias para diferentes jogos, mas mantendo sempre uma identidade imutável, também ela expressa na utilização de Otávio.

Um guerreiro que foi sempre capaz de ter o mesmo nível em todos os momentos do jogo. E terá sido sempre tal capacidade o barómetro das escolhas de Sérgio.

 

Melhor que ninguém, Conceição perceberá que o caminho para ganhar não se faz somente de toque, sobretudo quando há na equipa tantos elementos sem capacidade para entrar no “tango”.

Se haverá perdas dos mais adiantados, é importante que todos estejam igualmente capacitados para as diferentes tarefas.

 

Bonito não, mas eficaz na bola parada. E vencedor. Vencedor com Identidade, mesmo que quem não saiba exactamente o que isso significa só o use quando se refere ao futebol do Ajax, que entretanto voltou a desaparecer da Europa.

Porque diferentes ideias podem ser válidas para o que importa – ganhar. E Conceição liderou uma equipa que passou de condenada… a vencedora.

“One half step too late or to early
you don’t quite make it.
One half second too slow or too fast
and you don’t quite catch it.
The inches we need are everywhere around us.
They are in ever break of the game
every minute, every second.

On this team, we fight for that inch
On this team, we tear ourselves, and everyone around us
to pieces for that inch.
We CLAW with our finger nails for that inch.
Cause we know
when we add up all those inches
that’s going to make the fucking difference
between WINNING and LOSING
between LIVING and DYING”

Inch by Inch, discurso motivacional de Al Pacino no filme “Any Given Sunday” que traduz a mentalidade incutida por Sérgio Conceição no Porto campeão.

 

 

As Estrelas

Jesus Corona e Alex Telles

Alex Telles bate no peito | foto Pedro Correia IMAGO

 

Figuras incontornáveis do título azul. O mexicano, melhor jogador da Liga. Melhor Criador, e assim o foi partindo de diferentes posições. Em todas, o melhor da Liga.

Eficiência tremenda no seu gesto técnico, jogando por dentro ou por fora, em espaços mais curtos ou mais largos, encontrou sempre o caminho para alimentar os colegas no último terço. Nos momentos decisivos, o seu passe, o seu drible, o seu remate foram sempre o Porto Seguro do campeão. Alex Telles, mestre e senhor das bolas paradas.

Por si só, o suficiente para figurar na galeria de imortais. É o rosto do momento em que o Porto é provavelmente a melhor equipa Europeia, mas é mais do que bater os cantos ou os livres. Uma época inteira a percorrer distâncias incalculáveis num modelo que o torna extremo com bola, mas lateral sem ela.

Telles andou para a frente mas também para trás. Fechou o espaço, roubou bolas, fechou a sua baliza e ofensivamente foi ainda marcante. E marcou, também. Como naquela fria noite no Dragão em que o Portimonense a três minutos do final já sonhava levar pontos.

 

A Juventude

Foram muitos os vencedores da Youth League que conquistaram o troféu de Campeões com Sérgio Conceição.

De Romário Baró a Fábio Silva, passando por Diogo Leite, Diogo Costa, Tomás Esteves, Fábio Silva, Vitor Ferreira, Fábio Vieira e João Mário.

Romário Baró partiu para a temporada com papel importante – Jogou partidas iniciais e evidenciou-se no Estádio da Luz onde equilibrou a equipa e ainda foi capaz de assumir rédeas ofensivas do jogo, mas foram Vitor Ferreira e Fábio Vieira que terminaram a temporada a prometer bastante para o futuro azul.

 

Este é o futuro do Porto (segundo o nosso top-10 da formação)

 

Dois médios de elevado recorte técnico e características criativas únicas que nos fazem recordar dos grandes médios do futebol mundial. A forma como tocam a bola, decidem e executam sempre com uma eficiência extraordinária faz predizer que a eficácia chegará.

O futuro é azul e já na próxima temporada haverá espaço para a sua afirmação.

Tantas vezes criticado por quem não tem o mínimo de capacidade para entender como funciona o desenvolvimento do jovem jogador, Sérgio prosseguiu imune aos disparates de fora e vem tratando oportunamente do crescimento de verdadeiras pérolas. Venceu e paulatinamente terá uma equipa nova e bem mais criativa e capaz.

É só continuar a possibilitar o crescimento sustentado para que ninguém caia pelo caminho. Como aconteceu com alguns jovens em Lisboa na presente temporada.